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| Bernardete, de bem com a vida: mudanças de atitude e ajuda médica |
"Sempre fui uma pessoa bastante ativa, trabalhava em tempo integral, freqüentava a igreja, mantinha uma vida social intensa. Mas em meados de 1996 alguns sintomas começaram a chamar minha atenção: cansaço excessivo, muita sonolência e diversas dores pelo corpo. A cada nova dor procurava um médico diferente. Fazia os mais variados exames e nada era constatado. E assim ia levando a vida.
Em 1999 perdi meu pai. Passei os oito meses seguintes literalmente deprimida. Ou seja, me sentia muito triste e achava que era por causa do luto. Fui ao ginecologista, ao cardiologista, ao neurologista e a vários outros especialistas, que nada encontravam de errado. Mas, como nada, se eu via minha energia sumindo? Na busca por uma melhora, encontrei retorno em tratamentos alternativos que me ajudaram, mas só durante um curto período de tempo.
Logo os sintomas voltaram e foram piorando. Em 2003, lembro que passava os fins de semana na cama, dormindo muito. Sempre fui exigente comigo mesma e os médicos achavam que era estresse, devido a essa auto cobrança e às inúmeras atividades que estava envolvida. Também comecei a ficar com o raciocínio lento.
Levava semanas para fazer trabalhos que antes resolvia rapidamente. E ainda surgiram atritos com colegas de trabalho, o que não era comum.
Não me reconhecia
Um neurologista me investigou de alto a baixo, com mais de 20 tipos de exames, e também não concluiu nada. Aceitando que poderia ser mesmo estresse, tirei um mês de férias. Dormi praticamente os 30 dias: passava 12 horas deitada. No tempo restante, ficava constantemente irritada e sem energia. Não conseguia ir de casa ao supermercado; não ficava 15 minutos em pé; não tinha vontade nem de ler o jornal. E passei a fugir do convívio social. Tudo isso não tinha a ver com o meu perfil. Eu me conhecia bem e de repente não me reconhecia mais. No fim das férias estava pior...
Atrás de soluções para meu problema encontrei na internet uma clínica de controle de estresse. Marquei uma entrevista e a psicóloga me passou um longo questionário. Após cuidadosa análise das respostas, ela disse que eu estava muito estressada sim, mas o diagnóstico no meu caso era depressão e seria bom consultar um psiquiatra. Em um primeiro momento não acreditei: 'sete anos procurando resposta para o meu caso e essa foi a única profissional a falar na doença'.
O primeiro psiquiatra que procurei não confirmou o diagnóstico. Disse que minha cara estava boa, que eu não tinha nada e que ele não iria receitar remédio para dormir. Fui a um outro especialista que indicou medicamento e falou que em três meses eu estaria boa. Tive alguma melhora, mas esse estado não progredia. Aumentar a dose não resolveu e ele trocou o remédio, mas de forma abrupta. Os efeitos colaterais foram fortíssimos e a depressão aumentou.
Até que, em 2004, encontrei um médico que valorizou minha história. Ele diagnosticou que eu também tinha transtorno de ansiedade generalizada. Depois de seis meses chegamos à dose terapêutica do antidepressivo e fui melhorando. Freqüentar grupos de auto-ajuda da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) também ajudou. Entendi que devemos aceitar a doença e o tratamento, e que tomar o medicamento faz parte, não significa fracasso nem falta de força de vontade.
Aos poucos restabeleci minhas relações sociais e retomei minha vida profissional e afetiva. E hoje, além do tratamento medicamentoso e da terapia, me dedico à atividade física e ao lazer. Cuido mais de mim. Demorei sete anos para chegar a um diagnóstico e mais um ano até encontrar o psiquiatra que pôde me auxiliar. E só estou melhor porque não desisti de buscar ajuda. Ir atrás de informações me colocou no caminho da cura."
Entenda bem
De vez em quando as pessoas ficam tristes ou perdem o interesse pelas coisas. Porém, para indivíduos com depressão, esses sintomas podem durar meses e até anos se não tratados. Mas não é só tristeza. A doença também traz falta de energia; desespero; alteração de apetite ou de peso; perda de interesse nas atividades favoritas; dores inexplicáveis; falta de desejo sexual. Pode ser mais grave em uns do que em outros e aparecer por um fato específico ou estresse. Também pode ser hereditária. Pesquisadores acreditam que a doença surge por um desequilíbrio de substâncias químicas naturais - a serotonina e a noradrenalina - no cérebro e no corpo. Chamadas neurotransmissores, elas ajudam a controlar o humor e a dor. A depressão não é culpa de ninguém. É um estado de saúde grave que deve ser tratado. "O importante é buscar ajuda", diz o psicólogo Adriano Camargo, presidente da Abrata. A entidade, junto com a Federação Mundial para Saúde Mental, promove a campanha Quebrando Barreiras, para desmitificar a enfermidade e incentivar o paciente a buscar auxílio.