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| Lucia de Oliveira, Chefe do Setor de Fisiologia Ano-retal e Coloproctologia da Policlínica do Rio de Janeiro |
Embora não haja dados estatísticos oficiais, estima-se que cerca de 2% a 7% da população tenha algum grau da disfunção, que se caracteriza pelo escape involuntário de fezes ou gases. Essa perda do controle intestinal, chamada também de incontinência anal, é uma condição subestimada pela vergonha que as pessoas têm de relatar os sintomas até mesmo para o médico.
A disfunção ainda é considerada tabu, prejudicando a procura por auxílio e comprometendo a qualidade de vida. Muitos deixam de participar de atividades sociais e reuniões familiares com medo de um “acidente”.
Há diversos fatores que podem prejudicar a musculatura anal, provocando a incontinência. Entre eles está o trauma obstétrico que ocorre durante o parto natural, principalmente quando a mulher tem a pelve estreita e o bebê pesa mais de três quilos. O esforço para favorecer a passagem do bebê pelo canal vaginal pode romper a musculatura durante o trabalho de parto prolongado ou lesionar o nervo responsável pela atividade desta musculatura que sustenta os órgãos pélvicos e o sistema geniturinário (que engloba a parte genital e o trato urinário). Nas jovens, estas lesões costumam passar despercebidas, porque seus músculos são fortes. O problema aparece quando a mulher chega à maturidade, por conta das mudanças hormonais que favorecem a flacidez da musculatura pélvica. Também é comum a associação dos dois tipos de incontinência (anal e urinária).
O diagnóstico é feito por exame clínico, aplicação de questionários e avaliação da musculatura da região e do trânsito intestinal por manometria, ultra-som e eletromiografia.
OS CUIDADOS NO CASO DA INCONTINÊNCIA
ANAL DEPENDEM DO DIAGNÓSTICO E DO
GRAU DO DISTÚRBIO E PODEM VARIAR
DE UMA SIMPLES MUDANÇA NA
DIETA ATÉ CIRURGIAS
A combinação de exames muitas vezes é recomendada, já que a incontinência, não raramente, resulta em um somatório de fatores diferenciados. Há indivíduos, por exemplo, que têm o esfíncter (estrutura muscular que envolve o ânus e controla seus movimentos de contração) enfraquecido e apresentam incontinência nos dias em que têm diarréia. Por isso, o tratamento da diarréia é aconselhável antes de se tomar outra medida mais invasiva, assim como o controle da obesidade e da síndrome do intestino irritável, quando existentes.
Os casos menos graves, nos quais não há presença de lesões estruturais ou funcionais importantes, são tratados sem cirurgia. Cuidados dietéticos que auxiliam na formação de um bolo fecal consistente, por exemplo, diminuem as chances de um escape involuntário. Já a injeção de certas substâncias — particularmente o silicone — no períneo (a re gião localizada entre o ânus e o órgão genital) tem sido muito eficaz em alguns casos. Outras possibilidades de tratamento incluem ainda o biofeedback, técnica fisioterápica de autotreinamento de controle do esfíncter; a eletroestimulação anal e sacral; bem como o uso de medicações tópicas que mantêm o músculo anal mais contraído. Já para os casos considerados mais severos, há disponíveis diferentes opções cirúrgicas.
A boa notícia é que, em uma época em que a qualidade de vida das pessoas é cada vez mais valorizada, já existem várias alternativas de tratamento eficazes quando bem empregadas. Por isso, hoje, não se deve deixar o receio ou qualquer preconceito impedir a busca pelo bem-estar.