Viva Saúde
Edição 34 - Novembro/2006
 
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gente que deu a volta por cima
  "Minha batalha é incansável para não perder o desejo pela vida"
Fernando Senna de Carvalho, supervisor de vendas, 36 anos, após descobrir que tem hepatite C, está na fila de transplante por um fígado e luta pela doação de órgãos no país

POR LILIAN HIRATA

O gaúcho vive o dia-a-dia de quem precisa de um doador

No final do ano passado, sentia- me muito cansado, dormia mais tempo do que o normal e minhas pernas inchavam muito. Achava que era estresse, consultei um médico que disse que eu estava com infecção urinária. Não me importei. Mas na virada do ano senti dores tão intensas que desmaiei e fui levado ao hospital. Estava todo inchado. Como não havia leito disponível, passei dois dias sentado no chão do corredor e só consegui uma cadeira no terceiro. Neste dia, um médico que estava passando pediu aos enfermeiros que alguns exames fossem realizados, pois eu estava muito mal. Foi diagnosticado hepatite C. A doença já estava em estágio avançado e havia progredido para uma cirrose hepática. Aí, então, começou a minha luta na busca de um transplante.

Fiquei dois dias sem falar com ninguém, em choque. Refleti sobre minha vida profissional, pois me dedicava muito ao trabalho, às festas com os amigos, às viagens e à família. Foi difícil aceitar a situação.

Ainda no hospital iniciei uma pesquisa sobre todos os aspectos da doença e percebi que teria de decidir entre desistir ou continuar vivendo, mesmo tendo que abrir mão de minha rotina diária. Optei pela vida. A escolha mais difícil, mas a mais sensata. Após viver 21 dias sob observação e realizando exames, saí do ambiente hospitalar e deparei-me com vários obstáculos. O primeiro deles, o preconceito. Os amigos se afastaram e alguns espalharam a notícia de que eu estava com uma moléstia contagiosa que poderia ser transmitida facilmente. Sofri muito. Fui impedido de trabalhar pelo médico, pois não tinha condições físicas de realizar minhas funções. Mas o maior empecilho foi a minha própria aceitação.

Após o trauma inicial
Minha esposa Gabriele, que deixou seu emprego para cuidar de mim, passou a ser a peça fundamental para a minha recuperação. Mudei de cidade (de Santa Maria para Passo Fundo — RS) para ter acesso aos tratamentos e adaptei minha vida às novas condições que a doença me impôs.

Já fui internado cinco vezes, sendo que em três delas fiquei em estado de pré-coma. Em uma dessas vezes entrei em coma e tive que tirar uma hérnia umbilical, desencadeada pela própria doença, em um procedimento de emergência. A cirurgia foi arriscada e os médicos não sabiam se eu iria sobreviver.

Hoje sigo um tratamento rigoroso com acompanhamento especializado semanal. Tenho que tomar um coquetel de medicamentos diariamente, de oito a 11 remédios, mas nem todos consigo através do SUS (Sistema Único de Saúde). Também faço terapia com psicólogo e psiquiatra. Na verdade, enfrento uma batalha diária na qual busco forças que não me deixam desanimar. Luto contra as complicações novas que surgem a cada dia por conta do progresso da cirrose hepática.

Apesar de tudo estou disposto a ajudar o maior número de pessoas que posso, enviando informações pela internet (através dos e-mails gabidelima@yahoo.com.br ou fsennacar@yahoo. com.br) e divulgando a importância da doação de órgãos para salvar vidas, como a minha. Continuo na fila para um transplante de fígado. A espera pode ser longa, mas minha batalha é incansável para não perder o desejo de viver.

Entenda bem
A hepatite do tipo C é uma inflamação do fígado, causada por um vírus transmissível pelo contato com sangue contaminado. “A doença, na maioria das vezes, apresenta sintomas parecidos aos da gripe, sendo difícil de ser detectada, o que agrava o quadro”, explica o gastroenterologista Rosemar Stefenon, médico de Fernando. Estima-se que 20% das ocorrências se transformem em cirrose hepática (destruição das células hepáticas). “A necessidade de um transplante para o Fernando é devido à gravidade da lesão em seu fígado”, conta a hepatologista Lísia Hoppe, membro da equipe de transplante de fígado do Hospital São Vicente de Paulo, de Passo Fundo (RS). O paciente com cirrose hepática tem mais chances de desenvolver um tumor no órgão, segundo o especialista Rosemar. Por isso, Fernando aguarda receber um fígado na fila única de órgãos.

 


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