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Edição 33 - Outubro/2006
 
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gente que deu a volta por cima
  "Minha vida está só começando..."
Paulo Polido, piloto de motocross, fraturou a coluna durante um treino aos 19 anos. Hoje, com 27, acredita que o acidente abriu novos caminhos

POR DENISE CAMARGO

FOTO: DIVULGAÇÃOAos 19 anos de idade eu era um rapaz como muitos outros. Valorizava mais o “ter” do que o “ser”, preocupava-me somente com o dia de hoje: levantar bem cedo, ir para a academia, depois à faculdade e assistir às aulas de engenharia que cursava na época, voltar para casa, preparar a moto e os equipamentos para o treino logo depois.

Eu praticava motocross, disputando campeonatos estaduais, nacionais e internacionais. Tinha uma rotina privilegiada, viajava praticamente todos os finais de semana, por conta das competições, para várias partes do Bra sil e da América Latina.

Mas em uma tarde de junho do ano de 1998, em um dos treinos com minha moto, sofri um acidente na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. Naquela ocasião o primeiro fato que percebi foi que minha vida nunca mais seria a mesma.

No instante em que caí, já não senti mais as pernas. O tempo todo algo me dizia que a situação era muito séria. Quando me vi no chão sendo socorrido por meu pai e meus amigos estava totalmente consciente, mas não sabia exatamente o que estava acontecendo. Porém havia reparado que da cintura para baixo eu não sentia absolutamente nada.

Ao chegar ao hospital fui informado que havia fraturado a coluna e estava paraplégico. Ainda durante a internação iniciei a fisioterapia e fazia oito horas de atividades diárias. Neste primeiro ano após o acidente dei o máximo para me recuperar, pois sabia que este era o período mais crítico. Percebi que não podia deixar de aproveitar a vida e retomei a faculdade, desta vez no curso de Direito, tirei habilitação para carro adaptado, voltei a trabalhar e a sair com os amigos. Foi então que começou a minha grande “corrida”. O que para todos parecia ser o fim de tudo, para mim passou a ser o começo.

Uma nova corrida

Em meados de 1999, o médico ortopedista Tarcísio de Barros Filho indicou-me o tratamento experimental com células-troncos adultas para lesados medulares. Passei pela triagem e fui um dos selecionados, tornando-me um dos poucos brasileiros com paralisia dos membros inferiores a se submeter à terapia no Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) da Universidade de São Paulo, em 2002. Foi uma sensação indescritível, pois misturava alegria, medo, esperança e ansiedade pelo que aconteceria.

Desde então obtive grandes progressos a ponto de recuperar a sensibilidade da bexiga, pois usava sonda para urinar. A sensibilidade nas pernas também melhorou significativamente. Antes sentia até o joelho, hoje, a sensação vai até quase os pés. Além de já conseguir contrair voluntariamente os músculos da coxa direita e me locomover com a ajuda de um andador. Mas continuo o tratamento convencional, pois quero voltar a praticar motocross.

Este ano participei da 14º edição do Rally dos Sertões, utilizando um carro adaptado, com o intuito de incentivar outros deficientes. Agora sou o primeiro piloto com deficiência em toda América Latina. Meu principal objetivo no evento, entretanto, foi divulgar o trabalho de pesquisas com células-troncos, por isso batizei a equipe de Igualdade para Todos. Fundei também a VIQUI (Viva com Igualdade, Qualidade e Integridade), uma associação que luta pelo bemestar de portadores de quaisquer necessidades especiais. Minha vida só está começando...”

Entenda bem

“Quando o espermatozóide se une ao óvulo, nasce a célula primordial de um novo ser. Ela se divide muitas vezes, criando, depois de sete dias, um aglomerado chamado blastocisto. Essas células contêm toda a informação necessária para formar qualquer um dos 216 tecidos do organismo. Por isso recebem o nome de células-troncos”, explica a biomédica e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Lilian Piñero Marcolin Eça. Depois do nascimento elas são chamadas “adultas”. São elas que são usadas nas lesões da medula espinhal. A idéia básica é que o aumento delas no local afetado pelo acidente as transforme em células nervosas.



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