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Edição 33 - Outubro/2006
 
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  Cura para abortos de repetição

Dos casais em idade fértil, de 2% a 5% deles sofrem com os abortos de repetição, um problema que se caracteriza pela interrupção natural e recorrente (duas, três ou mais vezes) da gestação antes da 20ª semana. Esse processo pode ocorrer em mulheres com dificuldade para engravidar, que apresentam falhas de implantação do feto. Ou seja, seu sistema imunológico produz uma resposta “agressora” e não “protetora” em relação à gravidez. Em outras palavras, o embrião é visto como um intruso, um inimigo. Para entender como funciona esse mecanismo na prática é preciso conhecer a função das ‘NK’, sigla em inglês para Natural Killer, as células consideradas “assassinas naturais”. São elas que verificam se tudo está sob controle no organismo e, caso contrário, tratam de eliminar as substâncias e os agentes interpretados como suspeitos. Em algumas mulheres, cada nova tentativa de engravidar causa uma espécie de irritação do sistema imunológico, que fica hiperativo. Conseqüentemente, as natural killers encaram a nova situação como uma agressão ao corpo e, em seguida, liberam substâncias que promovem a morte do embrião.

O problema tem sua origem na união de um homem e uma mulher muito semelhantes do ponto de vista imunológico. Nesse caso o excesso de compatibilidade entre o casal só prejudica. Juntos, eles produzem embriões que costumam ser interpretados pelo organismo da gestante como agentes estranhos. O pior é que, a cada nova gravidez, esta reação orgânica é agravada, tornando mais difícil o desenvolvimento sadio de uma gestação. E isto ocorre da mesma maneira com aqueles belos embriões produzidos nos tubos de ensaio em fertilizações in vitro. No entanto, boa parte das mulheres que tem essa falha imunológica desconhece o problema e demora para ir em busca da solução adequada. Na gravidez que evolui normalmente, na fecundação e na tentativa de implantação do feto, a mulher entra em contato com os antígenos de origem paterna. Só que, ao invés de produzir uma resposta de agressão, o organismo dela desenvolve uma adaptação fisiológica que protege o bebê de possíveis agressões. Qual é a chave nesta história? Uma fração molecular especial chamada HLA-G. É essa molécula que entra em contato com o sistema imune materno e dá o aviso: “olha, isso que está crescendo aqui dentro é um bebê, não é uma doença, nem uma célula cancerígena. Portanto, não precisa ser combatido.”

FALHA IMUNOLÓGICA RESPONSÁVEL POR CAUSAR A INTERRUPÇÃO RECORRENTE DA GRAVIDEZ JÁ PODE SER TRATADA POR MEIO DE VACINAÇÃO

Hoje, sabemos que o problema imunológico causador dos abortos de repetição pode ser superado com a aplicação de vacina. O tratamento começa com uma série de exames, nos quais verificamos se a mulher produz anticorpos contra as células do homem. Se isso não ocorre, vamos para a segunda fase na qual é feita a coleta de sangue de seu companheiro. Esta amostra será fracionada em seguida para separar os leucócitos (células brancas) das hemácias (células vermelhas). As células brancas são então purificadas e injetadas na mulher por via intradérmica.

Fazemos duas sessões dessa imunização e confirmamos a resposta à vacina por meio de novos exames. O grupo que coordeno foi pioneiro, no Brasil, na introdução dessas vacinas nos candidatos a papais e mamães com difilculdades. E desde 1993, quando começamos a administrar a vacinação, chegamos a um índice de sucesso de 83% dos casais tratados.

FOTO: DIVULGAÇÃO RICARDO BARINI, PROFESSOR DA DISCIPLINA DE OBSTETRÍCIA DO DEPARTAMENTO DE TOCOGINECOLOGIA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNIVERSIDADE DE CAMPINAS (UNICAMP)


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