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Edição 32 - Outubro/2006
 
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gente que deu a volta por cima

POR JUREMA APRILE

“Precisei transpor muitas montanhas até chegar aqui”

Ao superar os limites impostos pela esclerose múltipla, doença degenerativa, e voltar a praticar surfe, sua paixão, o empresário paulistano Raphael Levy, 45 anos, descobriu o prazer de ajudar outros portadores

FOTO: DIVULGAÇÃO
Fico, como é conhecido, encarando uma onda na Costa Rica

"Cresci à beira-mar, no Guarujá, litoral paulista, e desde garoto decidi ser surfista. Viajei muito, disputando campeonatos. Em 1983, tornei-me empresário, fabricando carteiras, mochilas e outros artigos de surfwear. Tudo ia muito bem quando, aos 27 anos, repentinamente perdi a visão e tive uma crise de impotência sexual em plena lua-demel. O oftalmologista diagnosticou uma neurite ótica e o urologista disse que a impotência era psicológica.

Minha visão voltou após um tratamento, mas comecei a sentir dores fortes nas pernas, com espasmos.

No hospital, depois de ser medicado, acordei com paralisa da cintura para baixo. Ninguém conseguia dar uma resposta clara e precisa. Fui aos Estados Unidos para buscar um diagnóstico preciso, quando os médicos suspeitaram de esclerose múltipla (EM). Já no Brasil, tive muitas outras crises e entrei em depressão.

Passei por um período no qual precisei rever meus valores. Se estava com uma doença sem cura, tinha que acreditar nos médicos e seguir com afinco o tratamento indicado. Além da medicação, fazia muitas horas de fisioterapia diariamente. Foi aí que meu lado esportista me ajudou, porque conhecia os limites de meu corpo. E isso foi valioso para que eu aprendesse a preservar suas funções. Tam bém fiz terapia, mas o trabalho desempenhou um papel fundamental em minha vida, pois ao me ocupar, não tinha tempo para ser negativo.

No entanto, meu casamento terminou porque me dedicava integralmente à minha recuperação e não havia espaço para mais nada.

Reaprendi a andar, a surfar e adotei um estilo de vida mais saudável. Então, casei-me de novo e tive uma filha, que é minha luz.

Estabilidade

Tornei-me mais solidário. Depois da recuperação, dediquei-me a ajudar pessoas com o mesmo problema, contando minha experiência. Foi então que me aproximei da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem), que cuida de portadores de baixa renda. Também escrevi um livro, em 2004, no qual relato minha história: Fico — A história de Raphael Levy (Editora Gaia). Não é um best-seller, mas ajudou muita gente. Dou palestras e toda remuneração que recebo — juntamente com os direitos autorais — dôo para a Abem. Em 2005 lancei o selo Eu faço o bem, faça você também que acompanha o símbolo da entidade em produtos ou serviços de empresas que fazem doações.

Atualmente, quase 20 anos depois, estou bem melhor, não tenho mais crises, pratico pilates, ainda surfo e continuo com a fisioterapia. Sou uma pessoa normal, acredito que bem melhor que antes.

Para chegar aonde cheguei, precisei transpor muitas montanhas. Foi duro, não é um caminho tão florido como parece. Recorri à fé, à minha família, aos amigos, aos valores da vida e a uma força de vontade maior do que imaginava ter. Para mim, a união de todos esses fatores produziu o maior remédio que poderia receber”.

Entenda bem

A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória crônica rara e pertence à família das doenças auto-imunes, provocando dificuldades motoras e sensitivas que comprometem a qualidade de vida de seus portadores. Sua causa ainda é desconhecida, mas já se sabe que a incidência é maior em famílias com casos de outras doenças imunológicas. Ela costuma acometer mais os adultos jovens, entre 20 e 30 anos. “É mais comum nas mulheres — em cada quatro portadores, três são do sexo feminino”, explica o médico Dagoberto Callegaro, coordenador do Ambulatório de Doenças Desmielinizantes do Hospital das Clínicas e professor de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 


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