" Tinha três anos quando meus pais des cobriram que eu era diabético do tipo 1 - ou seja, meu pâncreas não produzia insulina. A partir daí, passei por vários médicos. Meus pais também buscaram orientações - muitas vezes, porém, passadas por pessoas leigas. E aos 21 anos fiquei cego devido a uma retinopatia diabética, uma complicação da doença que provoca sangramentos nos vasos ópticos.
Na época, um médico amigo da família indicou-me uma cirurgia a laser, novidade até então, que só era realizada em uma faculdade em Barcelona, na Espanha. Submeti-me ao procedimento cirúrgico e recuperei 90% da visão. Mas a alegria durou pouco: dois meses depois perdi novamente a capacidade de enxergar.
Hoje sei que se tivesse controlado o diabetes e realizado todos os exames de rotina, talvez tudo isso não teria acontecido. Mesmo com o choque, segui adiante e só pensava em me adaptar à nova condição.
Por isso, já no Brasil, matriculei-me em um curso de locomoção, no qual aprendi a usar bengala. Queria sair de casa sozinho, mas como sou alto - te nho 1,82 m - acabava esbarrando com freqüência nas coisas. E minha mãe ficava muito preocupada. Ela costumava me seguir, até o dia em que reclamei a um policial de uma senhora que estava me perturbando ao me acompanhar. Quando voltei para casa, encontrei-a chorando.
Depois disso nunca mais fui 'perseguido'. Precisava enfrentar esses desafios para continuar minha vida. Há uma tendência à superproteção por parte das famílias de deficientes e isso nem sempre ajuda.
Segui com meus estudos, conseguindo uma bolsa de estudos na área de programação de computadores. Na faculdade, menos de um ano após perder a visão, conheci minha esposa. Ao terminar o curso, comecei a trabalhar no Serpro - Serviço Federal de Pro cessamento de Dados - e lá fiquei por mais de 20 anos.
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