O número é significativo: 30% das crianças brasileiras respiram pela
boca e apresentam a chamada 'síndrome da respiração bucal'. Entre narinas
entupidas, desconforto na garganta e voz nasalada, instala-se um problema
sério que, devido à falta de atenção dos pais, acaba prejudicando a saúde,
a qualidade de vida e o desenvolvimento dos pequenos. E isso por vários
motivos, principalmente porque o ar que entra pela boca é mais agressivo
ao organismo - já que chega ao pulmão com as impurezas do ambiente. "O
nariz funciona como barreira: filtra, umedece e aquece o ar. O ser humano
nasceu para respirar por ele, não pela boca", destaca a otorrinolaringologista
Daniela Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela explica
que é chamado de respirador bucal quem tem uma respiração oral por mais
de quatro meses. E a pessoa não precisa estar com a boca escancarada,
bastam os lábios e dentes ficarem entreabertos.
O diagnóstico nem sempre é fácil. Especialistas afirmam que várias são
as complicações que levam uma criança a essa condição. As mais comuns
são as rinites alérgicas e o aumento das amígdalas (localizadas na garganta)
e adenóides (também conhecidas como carne esponjosa). Quando estas últimas
ficam grandes demais, o ar não passa. Outras causas são as inflamatórias
(sinusite), infecciosas e alterações anatômicas (desvio de septo).
O tamanho da encrenca
Ao longo do tempo, o hábito de respirar pela boca provoca flacidez dos
músculos faciais, lábios e língua, alterações na postura corporal, deformidades
faciais, insuficiência respiratória, má oclusão dentária, cansaço freqüente,
boca seca, mau hálito, falta de apetite e noites mal dormidas. A fisioterapeuta
Liu Chiao Yi (SP) explica que quem respira de forma incorreta tem uma
postura caracterizada por ombros caídos, pés chatos, joelhos projetados
para trás e uma retificação da região cervical (cabeça, ombros e braços
deslocados para frente). "A correção é feita através de exercícios respiratórios,
fortalecimento dos grupos musculares mais fracos e alongamentos, entre
outros recursos", diz.
Por causa da flacidez na boca e na língua, o processo de mastigação e
deglutição também fica comprometido. Resultado: a criança não tem uma
alimentação adequada, já que é impossível triturar a comida e respirar
ao mesmo tempo. "Ela come rápido, mastiga pouco, utiliza líquido para
auxiliar na hora de engolir e prefere alimentos pastosos", diz a fonoterapeuta
Zelita Guedes (SP), da Unifesp. Da mesma forma, a fala, o sono e a concentração
sofrem danos. "Estudos ainda apontam uma menor oxigenação cerebral quando
se respira pela boca, o que prejudica o aprendizado", completa a médica.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>