 |
| Juliane em sua visita ao São Paulo Fashion Week, um dos mais importantes eventos de moda do mundo |
Há sete anos, quando tinha 21 anos de idade, estava voltando de um jantar com meu namorado, e ao pararmos em frente a minha casa quatro rapazes anunciaram um assalto. Naquela situação tensa, um dos assaltantes disparou a arma e o tiro me atingiu. Na hora ficamos apavorados, mas meu namorado me levou imediatamente ao hospital mais próximo. Quando chegamos, percebi algo estranho: não conseguia sair do carro porque não sentia minhas pernas. Tive a primeira sensação de que a situação era grave. Foi então que minha história mudou. Pode parecer superstição, mas, durante todo esse dia, pressentia que alguma coisa ruim estava por vir.
Fiquei dois dias seguidos na UTI, realizando exames e passando por tratamentos. Foi um período angustiante para mim e principalmente para meus pais. Inclusive, precisei fazer drenagem no pulmão para retirar o sangue que havia se acumulado, em decorrência da perfuração feita pelo projétil. A bala entrou pelo meu braço esquerdo, atingiu o pulmão, passando a 2 cm do coração, e se alojou na medula espinhal, permanecendo ali até hoje. Por isso, fiquei paraplégica.
Diante dessa nova realidade, meus pais decidiram me encaminhar para o hospital de reabilitação Sarah Kubitschek, em Brasília. Lá, passei por vários tipos de tratamentos, como terapia e fisioterapia. Entretanto, só fiz um mês de acompanhamento psicológico, porque a terapeuta concluiu que eu estava muito bem e pronta para continuar minha vida. Isso porque muitas pessoas passam por uma longa fase de depressão por causa do impacto das limitações.
Durante os 37 dias de estadia nesse hospital, percebi que teria de aprender a viver com essa nova condição. Na verdade, tinha duas opções: ficar em casa esperando por uma cura milagrosa ou seguir em frente. Escolhi a segunda alternativa, decidindo encarar minhas limitações.
Essa temporada no hospital na capital federal enriqueceu minha percepção das coisas. Foi um tempo de reflexão, que me fez amadurecer.
Conheci pessoas maravilhosas que estavam na mesma situação e que me ensinaram o real significado da amizade e do amor. E vi que outras tinham problemas muito piores. Eu não era a única, e saber disso me fez bem. Mas minha maior descoberta foi perceber que a felicidade está dentro de nós, não nas coisas ou nas outras pessoas. Somos nós que decidimos como iremos viver e isso se reflete no dia-a-dia, em cada atitude tomada e nas escolhas que fazemos. Temos que nos aceitar do jeito que somos. Feio, magro, bonito, gordo, com limitação ou sem ela. Sempre haverá alguém que vai se encantar com nossas qualidades e defeitos.
Por isso, posso dizer que sou mais feliz hoje do que antes. Talvez não mudasse nada se pudesse. Conquistei amigos especiais e descobri que posso sempre contar com os que já tinha antes do acidente. Minha família é a peça-chave em minha história. Meus pais e minhas irmãs sempre me apoiam e me incentivam a superar a cada dia os obstáculos que surgem. Minha irmã, aliás, é minha parceira em tudo. Costumamos sair juntas para dançar, ir ao shopping e jantar.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>