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Edição 28 - Agosto/2006
 
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  Um olhar diferente
Mais de 100 milhões de pessoas no mundo possuem visão subnormal - 4% delas são crianças. Mas o diagnóstico precoce e o tratamento correto na infância podem melhorar a qualidade de vida do portador

POR CRIS PAZ

FOTOS: SÍMBOLO IMAGENScom quase três meses de idade, Fernanda Martins das Neves Lopes começou a apresentar um movimento acentuado e incomum dos olhos, girando-os de maneira orbital com certa freqüência, como se estivesse procurando algo. Sua mãe, Elizabete, estranhou o comportamento e relatou o fato à pediatra da menina.

A médica assegurou que era uma atitude normal para a idade e que desapareceria por volta dos seis meses. No começo, os pais aceitaram a argumentação. Mas o problema continuou incomodando. "Decidimos, então, consultar uma oftalmologista que nos deu um parecer desesperador", lembra a mãe. "Minha filha tinha um problema de visão que poderia vir acompanhado de outros males de ordem neurológica".

O pânico tomou conta do casal, que procurou ouvir uma segunda opinião. O exame de fundo de olho revelou que Fernanda possuía lesões congênitas na mácula (parte mais sensível da retina, repleta de terminações nervosas, cuja principal função é permitir uma visão detalhada e nítida das imagens). No caso da garota, esse 'defeito' foi causado por uma infecção pelo citomegalovírus (CMV) adquirida pela mãe durante a gravidez. Esse vírus pertence à família dos herpes-vírus, a mesma dos vírus da catapora, do herpes simples e genital e do herpes-zoster.

Fernanda faz parte do grupo de crianças que apresenta baixa visão (ou visão subnormal) - e está inserida nos cerca de 4% dos 135 milhões de casos relatados no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Caracterizada por uma diminuição da capacidade visual (os portadores enxergam no máximo 30% do equivalente a uma visão normal), essa deficiência é impossível de ser corrigida com uso de óculos convencionais, cirurgias e tratamentos medicamentosos.

Segundo a médica Maria Aparecida Onuki Haddad, presidente da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal e oftalmologista da entidade Laramara (Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual), 80% dos deficientes visuais não são cegos. Na verdade, possuem baixa acuidade visual e este sentido deve ser estimulado logo para facilitar o desenvolvimento de tarefas.

Minimizar a perda
"Logo após o diagnóstico, sentimos o mundo desabar. Mas depois veio a força para buscarmos ajuda", lembra a mãe de Fernanda. Foi a sorte da menina. Afinal, quanto mais cedo for obtido o diagnóstico, mais chances o portador deste tipo de deficiência terá de aperfeiçoar sua visão residual.

FOTOS: SÍMBOLO IMAGENSA oftalmologista Maria Aparecida Haddad ressalta que é comum deficiências nos olhos passarem despercebidas pelos pais e familiares, comprometendo o tratamento. Muitas vezes, são os professores que suspeitam de algo, pelas dificuldades da criança em desempenhar as tarefas escolares.

Não há cura para a visão subnormal, mas muitos recursos disponíveis facilitam o desenvolvimento e melhoram a qualidade de vida dessas crianças. Tratamentos clínicos e cirúrgicos podem ser indicados de acordo com as causas do problema, porém o objetivo será o mesmo: minimizar e estacionar a perda visual. Para isso, é extremamente importante estimular a visão residual tanto por meio do uso de lentes especiais (óculos específicos, lupas, telelupas) quanto pela adaptação de materiais (ampliando-os e aumentando os contrastes). O programa de estimulação é personalizado, levando em consideração a idade e o perfil do portador de baixa visão. Normalmente, a tarefa exige a utilização de brinquedos, jogos e materiais pedagógicos.

Possíveis causas de baixa visão na infância no Brasil


CATARATA CONGÊNITA: toda luz que entra pelo olho é absorvida pela estrutura chamada cristalino. A catarata provoca uma opacificação desta região, impedindo a passagem da luminosidade para a retina e, conseqüentemente, atrapalhando a visão. O problema pode ser hereditário ou ocasionado por um trauma durante o parto ou uma infecção na gestação (pelo vírus da rubéola, por exemplo). A cirurgia de tratamento deve ser feita o mais breve possível.

GLAUCOMA CONGÊNITO: aumento da pressão interna dos olhos causado por uma anomalia na eliminação do humor aquoso (líquido que drena o globo ocular). A criança apresenta aumento do globo ocular, muita sensibilidade à luz, lacrimejamento e coceira. A cirurgia deve ser decidida o mais cedo possível.

DOENÇAS HEREDITÁRIAS: albinismo, altas miopias, anomalias na retina, córnea, íris, mácula e no nervo óptico.

TOXOPLASMOSE OCULAR CONGÊNITA: quando a mãe é infectada na gravidez, a infecção pode passar para o feto.

NEURITE ÓPTICA: inflamação do nervo óptico do recém-nascido associada à presença na mãe de anemia, subnutrição, diabetes ou uso de drogas.

RETINOSE PIGMENTAR: doença hereditária cujos sintomas em geral se manifestam no jovem. Trata-se de uma degeneração da retina que começa na periferia e lentamente compromete a visão central.

FONTE: ELIANA CUNHA LIMA, ORTOPTISTA DA CLÍNICA DE VISÃO SUBNORMAL DA FUNDAÇÃO DORINA NOWILL.

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