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| Fernanda e a filha, fortes, saudáveis e felizes |
Com toda a jovialidade de uma mulher de 28 anos de idade, sentia-me saudável e com muitos sonhos para realizar - inclusive casar e ter filhos. Certo dia, acordei com fortes dores de cabeça e enjôos e a reação natural foi tomar um comprimido para aliviar o incômodo. Mas não adiantou. As dores ficaram tão intensas a ponto de eu não conseguir nem abrir os olhos. Minha mãe me levou ao prontosocorro e, de acordo com os sintomas que eu apresentava na época, o médico julgou ser uma virose, receitou alguns remédios e disse para voltar para casa.
Porém, as dores continuaram. No dia seguinte voltei ao hospital e as recomendações foram as mesmas. No terceiro dia, ainda estava naquela condição e minha mãe disse que não sairia de lá sem uma solução. Conversou com alguns médicos e pediu-lhes que realizassem testes mais específicos. Paralelamente, um dos plantonistas, que era especializado em hematologia, desconfiou que pudesse ser meningite e encaminhou-me para alguns exames. Durante a tomografia constatou-se algo diferente em meu cérebro, mas ainda não era possível ter um diagnóstico preciso. Fui transferida para o Hospital Samaritano (SP), onde foi feita uma angiografia - método que permite a visualização dos vasos sangüíneos e a constatação de anomalias - que detectou a trombose venosa cerebral. Havia vários coágulos (trombos) de sangue e um dos seios venosos cerebrais estava entupido, provocando um inchaço do nervo ótico. Por isso, durante a minha internação, aconteceu algo que eu não esperava: havia perdido a visão. Foi um choque. Era impossível acreditar na hipótese de nunca mais enxergar sem nem ao menos saber o motivo. Passei 25 dias no hospital com a sensação de ter a morte ao meu lado.
A partir daí, outros testes foram feitos, porque meu médico, o hematologista Elbio D'amico, estava em busca da causa da trombose e não somente do tratamento adequado. Minha visão voltou após ter sido devidamente medicada. E foi então que descobri ser portadora do Fator V de Leiden (uma mutação genética que promove desequilíbrio na coagulação sangüínea, favorecendo a formação de trombos).
Fatores de risco
Antes de passar por tudo isso, costumava tomar pílulas anticoncepcionais, que aumentam os fatores de coagulação, tornando o sangue mais propenso à trombose. Como não sabia que era portadora do Fator V de Leiden, nunca me preocupei em manter cuidados para evitar o surgimento de trombos.
Hoje, sei que poderia ter morrido por essa falta de conhecimento. Aliás, poderia ter perdido definitivamente minha capacidade de enxergar. Tive sorte também, porque não precisei fazer drenagem cerebral. Somente tomei remédios à base de heparina (anticoagulante com a função de prevenir o crescimento de coágulos no sangue e diminuir o risco de embolia pulmonar).
O tratamento durou seis meses, nos quais me senti mal, porque não pude trabalhar, dirigir ou fazer atividades cotidianas. Sempre fui independente e tal situação me abalou. Mas graças à competência do meu médico chegamos à causa da trombose venosa cerebral. Ele pediu exames para a minha família toda, já que a anomalia é hereditária. Daí descobrimos que meu pai também é portador do Fator V de Leiden. Isso explicou a trombose que meu pai teve nos membros inferiores anos antes.
Muitas vezes depois, quando tive dores de cabeça, pensava que era trombose e a terapia, que já fazia naquela época, acabou me ajudando bastante.
Hoje, cinco anos depois, valorizo o atendimento que tive, por não ter deixado seqüelas. Tenho que tomar certos cuidados com a minha saúde, mas isso não me impede de viver normalmente. Há seis meses tive minha primeira filha, Ana Carolina, que nasceu saudável, e estou feliz por não ter tido qualquer problema durante a gravidez, que por causa do Fator V de Leiden aumenta os riscos de trombose. Tomei injeções de heparina nos nove meses de gestação e após o nascimento do bebê. Sempre quis ser mãe. E esse desejo foi maior do que qualquer medo. "
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