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Especial Viva Saúde - Junho/2006
 
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  Entenda e previna o câncer
Formada por um conjunto com mais de 100 doenças - cujo traço comum é o crescimento desordenado de células que invadem os tecidos e órgãos -, a enfermidade ocupa o topo da lista de preocupações com a saúde. Mas é possível evitá-la

Papiros egípcios foram os primeiros documentos localizados por arqueólogos com referência a tumores, mas foi o grego Hipócrates (460-370 a.C.), o pai da medicina, quem cunhou o termo câncer, que significa 'caranguejo' - livre associação entre as patas do animal e a formação de vascularização em torno do tumor. A idéia de que a doença era incurável foi proposta pelo médico romano Galeno (130-200 d.C.). A sentença inexorável de morte até então associada a essa doença somente começou a sofrer algum abalo a partir do século XVIII, quando um cirurgião escocês, John Hunter, anunciou que certos tumores poderiam ser extraídos por meio de cirurgia. Cerca de 100 anos mais tarde, o médico alemão Matthias Schleiden sugeriu que o mal seria fruto da divisão de células alteradas. A moderna oncologia tomaria impulso ao longo do século XX, com o desenvolvimento da cirurgia, radioterapia, medicina nuclear e quimioterapia.

O salto para o presente mostra que não falta arsenal de combate aos diversos tipos de cânceres, mas os números da doença também experimentam crescimento formidável. Em todo o mundo, as estimativas dão conta de que surgem em média 10 milhões de novos casos a cada ano, metade dos quais nos países em desenvolvimento, onde escasseiam alguns recursos para prevenir o surgimento de alguns tumores.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca), calcula que surgirão 470 mil novos quadros da enfermidade ao longo desse ano. O órgão, vinculado ao Ministério da Saúde e com sede no Rio de Janeiro, prevê uma distribuição proporcional entre os sexos masculino e feminino. Quanto à incidência de tumores, estima-se que o câncer de pele não melanoma será o mais freqüente, seguido pelos tumores de mama feminina, próstata, pulmão, cólon e reto, estômago e colo do útero. Entre os homens, despontam os de pele não melanoma, próstata e pulmão. Para o sexo feminino, destacamse os tumores de pele não melanoma, mama e colo do útero.

Esclareça a seguir as principais dúvidas a respeito do assunto.


O que é?

Dá-se o nome de câncer a um conjunto de mais de 100 doenças cujo traço comum é o crescimento desordenado de células que invadem os tecidos e órgãos. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores (acúmulo de células cancerosas) ou neoplasias malignas. Este processo ocorre por acúmulo de alterações genéticas em múltiplas etapas e sob impacto de agressões ambientais igualmente cumulativas. Os diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células do corpo. Por exemplo, existem diversos tipos de câncer de pele porque a pele é formada de mais de um tipo de célula. Se o câncer tem início em tecidos epiteliais, como pele ou mucosas, ele é denominado carcinoma. Se começa em tecidos conjuntivos como osso, músculo ou cartilagem é chamado de sarcoma. Os diversos tipos também se diferenciam pela velocidade de multiplicação das células e pela capacidade de invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes (metástases).

 


Como Surge?

As células humanas são constituídas por três partes: a membrana celular (parte externa); o citoplasma, que constitui o corpo da célula; e o núcleo, que contém os cromossomos, por sua vez compostos de genes. Os genes são arquivos que guardam e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades das células no organismo. Toda a informação genética encontra-se inscrita nos genes. É através do DNA que os cromossomos passam as informações para o funcionamento da célula.

Uma célula normal pode sofrer alterações no DNA. É a chamada mutação genética. As células cujo material foi alterado passam a receber instruções erradas para as suas atividades. As mudanças podem ocorrer em genes especiais, denominados protooncogenes que, em células normais, têm a função de ativar a divisão celular de acordo com estímulos externos à célula. Quando mutados ou ativados, os proto-oncogenes passam a ser chamados de oncogenes, pois perdem o controle da divisão celular, passando a estimulá-la de maneira desordenada. "Essa é uma das razões pela qual essas células têm grande chance de tornarem-se malignas após alterações subseqüentes", explica o cirurgião oncologista Benedito Mauro Rossi, do Hospital do Câncer AC Camargo, de São Paulo.

Existem ainda dois outros grupos de genes: os supressores de tumor e os genes de reparo. Os primeiros funcionam de maneira inversa aos proto-oncogenes, diminuindo a velocidade do ciclo celular, enquanto os genes de reparo funcionam consertando erros que ocorrem eventualmente durante a divisão celular. Para entender melhor esse processo que ocorre na intimidade imagine um carro (célula em divisão), com o acelerador (proto-oncogenes), o freio (supressores) e o mecânico (reparo). Quando tudo está em ordem, não há intercorrências. Mas quando acontece uma falha em algum dos sistemas, existe uma grande probabilidade de ocorrer um acidente.

Quais são as causas?

Elas são variadas, podendo ser externas ou internas ao organismo, estando inter-relacionadas.

As causas externas relacionam-se ao meio ambiente e aos hábitos ou costumes próprios de um meio social e cultural. As causas internas são, na maioria das vezes, geneticamente pré-determinadas, e estão ligadas à capacidade do corpo de se defender das agressões externas. Esses fatores causais podem interagir de várias formas, aumentando a probabilidade de transformações malignas nas células normais.

De todos os casos de câncer, 80% a 90% estão associados a fatores ambientais. Alguns deles são relacionados pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca): o tabagismo, responsável por um em cada três casos de câncer; a exposição solar, causando câncer de pele; alimentos gordurosos, tidos como fatores de risco para tumores de intestino; e alguns tipos de vírus como o HPV, relacionado ao câncer de colo de útero.

O envelhecimento traz mudanças nas células que aumentam a sua suscetibilidade à transformação maligna. Isso, somado à maior exposição das células de pessoas idosas aos diferentes fatores de risco ambientais, explica em parte o porquê de o câncer ser mais freqüente nesses indivíduos. Os fatores de risco ambientais para o câncer são denominados cancerígenos ou carcinógenos. Segundo os especialistas, eles atuam como agressores para as células, e sua ação é cumulativa. Desse modo, o surgimento do câncer depende em boa parte da intensidade e duração da exposição aos agentes causadores. Por exemplo, o risco da pessoa desenvolver câncer de pulmão é diretamente proporcional ao número de cigarros fumados por dia e ao número de anos de vício.


Como pode ser tratado?

O tratamento do câncer, de acordo com os especialistas, está baseado em um tripé: cirurgia, radioterapia e medicamentos. O procedimento clínico pode ser realizado com três diferentes medicações: quimioterápicos, hormonioterápicos e imunoterápicos. As modalidades podem ser combinadas e, muitas vezes, é o que ocorre para se atingir melhores resultados de cura.

Para o oncologista Roberto Gil, do Rio de Janeiro, secretário de comunicação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, o aumento do conhecimento no campo da biologia molecular tem apontado na direção de avanços significativos tanto na doença avançada quanto na fase inicial. O maior problema tem sido a explosão desses custos. "A SBOC acredita que somente com um pacto entre governo, indústria farmacêutica, operadores de saúde e prestadores de serviços - médicos, clínicas e hospitais oncológicos -, conseguiremos encontrar soluções para acompanharmos essa verdadeira revolução que vem ocorrendo na área oncológica", acredita o médico.

Considerando também que cada tipo de câncer apresenta-se como uma doença com características próprias e peculiares, o esquema de tratamento adotado é bastante diferenciado entre os vários tumores. Um dos fatores que determina a associação de recursos terapêuticos é o estadiamento (grau de evolução) do tumor, extremamente variável. A conduta a ser adotada, caso a caso, raramente é decidida por um único especialista, mas integra um número vasto de profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, entre outros. É importante destacar também que quanto mais precoce o diagnóstico é feito, maiores são os índices de cura. Prevenção, portanto, é a palavra de ordem.

 

Hereditariedade

Cerca de 10% dos casos de câncer estão relacionados à hereditariedade. O que existe é uma maior predisposição à doença devido a fatores genéticos herdados, como acontece, por exemplo, com alguns tipos de câncer mama e intestino. Assim, o histórico familiar tem adquirido um peso considerável no risco de aparecimento dos tumores e na necessidade de um acompanhamento mais próximo dessas famílias. Mas o oncologista Benedito Mauro Rossi argumenta: "Não podemos esquecer que esses indivíduos também estão sujeitos às agressões ambientais. Além disso, constituem um grupo de risco importante e devem ser orientados para fazer uma prevenção rigorosa". Os dois sinais de alerta para a presença do fator hereditariedade são a presença de vários casos de câncer na família e a ocorrência de tumores em idade jovem, abaixo dos 45-50 anos.

Medidas de prevenção primária

1.Controle do uso de tabaco
2.Redução do consumo de álcool
3.Estímulo à dieta com qualidade nutricional
4.Estímulo à prática de atividades físicas regulares

Medidas de prevenção secundária

 Exames periódicos para diagnóstico - em etapa inicial e mais facilmente tratável - de tumores de grande incidência (mama e colo do útero), cuja detecção pode ser feita por exames relativamente simples e baratos
 Mamografia (de acordo com a faixa etária da paciente) e Papanicolau.
 No homem, o rastreamento do câncer de próstata em visitas periódicas ao urologista.
 Em ambos os sexos, prevenção do câncer do intestino por meio de uma alimentação nutritiva e rica em fibras.

(Fonte: Instituto Nacional do Câncer - Inca)


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