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Especial Viva Saúde - Junho/2006
 
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  Desafio tropical
As condições do meio ambiente favorecem o desenvolvimento e a proliferação do Aedes aegypti, principal mosquito transmissor do vírus da doença

Os transmissores de dengue reproduzem- se dentro ou nas proximidades de habitações em qualquer coleção de água limpa (caixas d'água, cisternas, latas, pneus, cacos de vidro, vasos de plantas). Mas apesar de viver e disseminar-se em ambientes aquáticos domésticos, o mosquito Aedes aegypti é uma espécie hematófaga (que se alimenta de sangue), que veio da África ainda na época da colonização. Atualmente, o transmissor está presente em cerca de 3.600 cidades brasileiras (de um total de aproximadamente 5.600 municípios). "Até a reintrodução do Aedes aegypti no país, em 1967, a dengue chegou a ser considerada erradicada. Depois foi registrada uma série de surtos, o maior deles em 2002, quando foram notificados quase 800 mil casos da doença", diz Vera Lúcia Gattás, responsável pela Gerência Técnica das Doenças Emergentes e Reemergentes do Ministério da Saúde.

A dengue - palavra de origem espanhola que quer dizer 'melindre' ou 'manha', referência explícita a prostração física em que fica a pessoa contaminada pelo vírus, após a picada do mosquito - foi relatada pela primeira vez no mundo no final do século XVIII, no Sudoeste Asiático, em Java, e nos Estados Unidos, na Filadélfia. Mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) só a reconheceu como doença no século XX. Mais recentemente, surgiu a dengue tipo 3, registrada nas Américas em 1994, quando reapareceu na Nicarágua, se espalhou por outros países da América Central e posteriormente alcançou a Colômbia e a Venezuela. Sua entrada no Brasil era esperada devido ao intenso tráfego com estes países, o que realmente ocorreu no final de 2000.

É preciso agir rápido

A média de casos notificados todos os anos no país é de aproximadamente 200.000 pessoas infectadas, considerando as infecções sub-clínicas e as sub-notificações que não aparecem nas estatísticas oficiais.

Segundo o virologista Hermann Schatzmayr, da Fiocruz, o vetor Aedes aegypti está hoje disseminado em praticamente todo o Brasil e, desse modo, a tendência é que esses números se mantenham elevados nos próximos anos, se não houver uma drástica redução dos índices de infestação.

Para Schatzmayr, as sucessivas infecções por dengue provocam os casos mais graves por ocasião das reinfecções, fenômeno observado em outros países e também no Brasil, após a entrada do tipo 2, em 1990. Essa cepa do vírus estaria na raiz de um maior comprometimento hepático e também do surgimento das encefalopatias (doenças degenerativas do cérebro).

De acordo com o Centro de Informação em Saúde para Viajantes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil, onde a dengue adquiriu contornos de endemia (quando há freqüência de ocorrência da doença) circulam os vírus tipos 1, 2 e 3.

Em sua forma clássica, a doença tem início súbito, provocando febre alta (acima de 39º), cefaléia, náuseas, prostração e prurido cutâneo, entre outras manifestações. Mas esse quadro pode ser confundido com o aparecimento de outras enfermidades, como sarampo ou rubéola. O autodiagnóstico e automedicação devem ser evitados a todo custo para não agravar ou mascarar a doença. A orientação da área técnica das Doenças Emergentes e Reemergentes do Ministério da Saúde é, diante desses sinais, buscar orientação médica rapidamente para que se possa fazer o diagnóstico precoce e se iniciar tratamento imediato. O quadro costuma durar de cinco a sete dias, quando são implementadas medidas terapêuticas visando a manutenção do estado geral do paciente. Quando a febre cede, os sintomas regridem, embora possa persistir a fadiga.

A dengue é uma doença de evolução benigna na versão clássica, porém, em sua forma hemorrágica, pode se tornar grave. Os sintomas de ambas são semelhantes no início do quadro clínico. Mas o tipo hemorrágico evolui com tendência a hemorragias, dores abdominais intensas, palidez cutânea, pele pegajosa e fria, agitação, sonolência, dificuldade respiratória, pulso rápido e fraco.

Existe uma parcela da população com pré-disposição genética para desenvolver o quadro hemorrágico desde o início da manifestação da enfermidade. Mais uma vez o diagnóstico precoce é condição fundamental, bem como o tratamento imediato, para que a doença não leve à morte.

Redução do impacto da doença no país

Nas últimas décadas, com a explosão urbana e a modificação dos cenários naturais nas grandes cidades do mundo, foram crescendo também as dificuldades com o manuseio do lixo e com o abastecimento de água. O perfil do próprio lixo mudou: na década de 40 ele era basicamente orgânico; hoje, são dispendas diariamente milhares de garrafas plásticas, tampas, embalagens diversas, enfim, objetos que, indevidamente acondicionados, acabam favorecendo o acúmulo de água - e, consequentemente, abrindo novas oportunidades para que o mosquito Aedes aegypti deposite seus ovos e a proliferação da enfermidade ocorra.

Diante da tendência de aumento da incidência verificada no final da década de 90 e da introdução de um novo sorotipo (dengue tipo 3) que prenunciava um elevado risco de epidemias de dengue e de aumento nos casos de Febre Hemorrágica de Dengue (FHD), o Ministério da Saúde, com a parceria da Organização Pan-Americana de Saúde, realizou um Seminário Internacional, em junho de 2001, para avaliar as diversas experiências bem sucedidas no controle da doença e elaborar um Plano de Intensificação das Ações de Controle da Dengue (PIACD).

A introdução do sorotipo 3 e sua rápida disseminação para oito estados, no curto período de três meses, evidenciou a facilidade para a circulação de novos sorotipos ou cepas do vírus com as multidões que se deslocam diariamente. Estes eventos ressaltaram a possibilidade de ocorrência de novas epidemias de dengue clássica e de dengue hemorrágica.

Neste cenário epidemiológico, tornou- se imperioso que o conjunto de ações que vinham sendo realizadas e outras a serem implantadas fossem intensificadas, permitindo um melhor enfrentamento da situação e a redução do impacto da dengue no Brasil. Com esse objetivo, o Ministério da Saúde implantou no ano de 2002 o Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), cuja divulgação continua seguindo por todo o país.

Melhoria do tratamento e vacina à caminho

Em outro front, buscando ampliar as defesas contra o mosquisto e seu potencial de infestação, o Ministério da Saúde planeja manter os investimentos em pesquisas científicas sobre seis das chamadas doenças negligenciadas: dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose, tuberculose e hanseníase. Essas doenças afligem grande parte da população mundial e consomem apenas 10% dos recursos de pesquisa, segundo o Fórum Global de Saúde. A evolução dos tratamentos, a atenção em relação aos cuidados com os pacientes e o desenvolvimento de vacinas também fazem parte dos projetos futuros de combate à dengue.

Durante o 1º Simpósio Internacional de Imunobiológicos e Saúde Humana, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), recentemente no Rio de Janeiro, o pesquisador norteamericano Bruce Innis afirmou que no prazo máximo de seis anos deverá chegar ao mercado uma vacina para imunizar contra a dengue.

A pesquisa mais animadora é a realizada pelo laboratório farmacêutico GlaxoSmithkline em parceria com o Centro Médico Walter Reed, do exército norte-americano, que busca um imunizante contra esse mal desde a década de 70, Utilizando um protótipo de vacina tetravalente, ou seja, que reúne vírus dos quatro tipos conhecidos de dengue. Innis afirmou que o produto teste foi aplicado em 25 voluntários sadios nos Estados Unidos e que 70% deles teriam desenvolvido anticorpos contra a enfermidade. O estudo em andamento deverá envolver também voluntários brasileiros, segundo o pesquisador, considerando a elevada incidência da doença no país. A expectativa é que a vacina esteja totalmente testada e aprovada por volta de 2011.

O diagnóstico passa por:

1. Medida da pressão arterial em duas posições (deitado e em pé).

2. Verificação da freqüência por minuto do pulso radial.

3. Prova do laço, que consiste em colocar um garrote no braço por um minuto para observar eventual formação de mancha vermelha, sugerindo alteração hemorrágica.

4. Descrição da coloração das mucosas, grau de hidratação e tempo de enchimento capilar.

5. Confirmação, que será feita através da clínica e exames laboratoriais específicos (sorologia e/ou isolamento de vírus). Os pacientes que necessitam de maior atenção do sistema de saúde são os que além da suspeita de dengue apresentam história patológica pregressa de alergias (principalmente asma brônquica), anemia falciforme, diabetes mellitus, doenças autoimunes e doenças severas do aparelho cardiovascular ou respiratório.

Fontes: Ministério da Saúde/FUNASA. Vigilância Epidemiológica e Atenção ao Doente; OPAS. Dengue and dengue hemorrhagic fever in the Americas: guidelines for prevention and control; Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Manual de Vigilância Epidemiológica de Dengue.

Manual da dengue

A doença

Dengue é uma doença febril aguda, de etiologia viral e de evolução benigna, na forma clássica, e grave quando se apresenta na forma hemorrágica. É a virose urbana mais difundida no mundo. Com exceção da Europa, ocorre em todos os continentes. É um mal de áreas tropicais e subtropicais, onde as condições do meio ambiente favorecem o desenvolvimento e a proliferação do Aedes aegypti, principal mosquito transmissor do vírus.

Agente infeccioso

O vírus do dengue é um Arbovírus (vírus transmitido por inseto). São conhecidos quatro sorotipos: 1, 2, 3 e 4.

Modo de transmissão

Através da picada do mosquito fêmea Aedes aegypti no ciclo homem-mosquito-homem. Uma vez infectado, o ser humano demora de quatro a dez dias para apresentar os sintomas da enfermidade. O mosquito macho não transmite a doença, pois alimenta- se apenas de seiva de plantas.
A transmissão ocorre enquanto houver presença de vírus no sangue do homem (período de viremia). Este período começa um dia antes do aparecimento da febre e vai até o 6º dia da doença. Não há transmissão por contato direto com um doente ou de suas secreções com uma pessoa sadia, nem de fontes de água ou alimento.

Manifestações clínicas

Na forma clássica a doença tem início súbito, com febre alta (39º ou 40º C) , mialgia, cefaléia, anorexia, náuseas, vômitos, prostração, além de prurido cutâneo, podendo assim ser confundida com sarampo ou rubéola. A doença permanece em média por um período de cinco a sete dias. Quando cede a febre, há regressão dos sinais e sintomas, podendo ainda persistir a fadiga.
A febre hemorrágica tem sintomas semelhantes aos da dengue clássica no início do quadro clínico, porém evolui com tendência a hemorragias, dores abdominais intensas, palidez cutânea, pele pegajosa e fria, agitação, sonolência, dificuldade respiratória, pulso rápido e fraco, podendo levar o paciente ao choque e à morte.

Tratamento

Não há um procedimento específico para combater o dengue. As medidas terapêuticas visam à manutenção do estado geral do paciente. Não devem ser usados derivados do ácido acetilsalicílico para minimizar a dor e a febre, pois podem provocar sangramentos. A mesma contra-indicação aplica-se aos demais antiinflamatórios não hormonais, mesmo quando usados por via intramuscular. O ideal é, diante dos sinais, procurar atendimento médico para receber o diagnóstico, as orientações e o tratamento medicamentoso adequado.


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