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Especial Viva Saúde - Junho/2006
 
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  Apague esse vício
Considerada a primeira causa de morte evitável no mundo, a dependência de nicotina pode e deve ser tratada de várias maneiras, mas o primeiro passo é ter força de vontade para se livrar do cigarro

FOTOS: FERNANDO GARDINALI. PRODUÇÃO: LUANA PRADE.Em um gesto automático, o fumante leva o cigarro até os lábios e acende a sua ponta. Em poucos segundos, a fumaça chega aos pulmões, passa pelos alvéolos, cai na corrente sangüínea e vai até o cérebro, dando, em um primeiro momento, uma sensação de bem-estar. Junto com este falso prazer, o organismo recebe quase cinco mil substâncias tóxicas, muitas delas comprovadamente cancerígenas. Entre elas, a nicotina é a mais conhecida e, talvez a mais nociva, porque, apesar de não ser cancerígena, é a responsável pela dependência ao tabaco. Sem contar que colabora, ainda, com a redução do diâmetro dos vasos sangüíneos, o que dificulta a chegada de nutrientes e de oxigênio às células.

Mas a viagem da nicotina pelo corpo é rápida. Bem depressa o organismo se dá conta da invasão e começa a excreção. Quando o cérebro percebe que o nível de nicotina está caindo, reage com um alto grau de ansiedade. Começa aí a síndrome de abstinência, uma necessidade premente de mais um cigarro para acalmar. Fecha-se, então, o círculo vicioso. A saúde de quem fuma e de quem precisa conviver em um mesmo espaço vai, aos poucos, sendo comprometida.

E lá vai fumaça

Apesar de, nos anos 1950, estudos já apontarem o tabagismo como causador de enfisema pulmonar, vários tipos de câncer, ataques cardíacos e outros problemas mais, por muito tempo acender um cigarro atrás do outro era uma questão de estilo. Nos anos 80, 32% dos brasileiros acima de 12 anos estavam fumando, segundo estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizado em 107 cidades do Brasil. Número semelhante foi encontrado pela Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN), realizada em 1989.

Hoje, depois de diversas ações de controle do tabagismo, coordenadas pelo Instituto Nacional de Câncer-(Inca), como a proibição de publicidade e patrocínio de eventos culturais e esportivos, além de ações educativas, incluindo campanhas informativas sobre os males causados pelo tabaco, este percentual caiu para cerca de 18%, de acordo com o Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos não Transmissíveis, realizado pelo Inca em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde, ambos do Ministério da Saúde, em 2002 e 2003, em 15 capitais brasileiras e no Distrito Federal, entre pessoas de 15 anos ou mais.

Especialmente entre os os jovens, segundo o estudo Vigilância de Tabagismo em Escolares (Vigescola), realizado pelo Inca em parcerias com a OMS e o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, em 17 cidades brasileiras, sendo 16 capitais, com escolares de 12 a 16 anos, nos anos de 2002 a 2005, a prevalência de fumantes variou de 6,5% a 19,6% nas cidades pesquisadas.

FOTOS: FERNANDO GARDINALI. PRODUÇÃO: LUANA PRADE.

Como os problemas surgem muitos anos depois da primeira tragada, os apreciadores do tabaco têm a falsa sensação de que 'comigo nunca acontecerá'. Prova disso são os dados de um estudo recente do Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos, com mais de seis mil fumantes. Apenas 23% dos entrevistados acreditam ter uma chance 10 vezes maior de desenvolver câncer de pulmão em relação à população em geral. Mas, segundo o pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do PrevFumo, da Unifesp, este risco existe e pode ser até 20 vezes superior.

Aliás, asseguram os especialistas, o fumo é o responsável por 90% dos casos de câncer, pois os fumantes buscam ajuda médica tarde, quando têm problemas com a falta de ar ou, pior, quando uma doença grave já está instalada.

Estima-se que as tragadas provoquem 4,9 milhões de mortes anuais - ou 10 mil óbitos por dia. E, se nada for feito, a previsão é de que em 2030 essa marca se aproxime dos 10 milhões.

O pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do PrevFumo, Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo vinculado à disciplina de Pneumologia da Unifesp, revela estratégias para acabar com o vício:

 A interrupção abrupta é sempre a melhor opção. Para quem fuma muito (mais de 20 cigarros por dia), no entanto, o ideal é reduzir a quantidade para 15 ou 10 e, depois, parar de vez.

 Evite álcool, café e doces, que aumentam a vontade de fumar.

 Para suprir o hábito de levar o cigarro na boca, trate de mantê-la ocupada. Masque uma cenoura ou consuma balas.

 Beba muita água. O líquido estimula a sensação de saciedade e reduz a vontade de fumar. Além disso, favorece a eliminação das secreções que se acumulam e ficam armazenadas nos pulmões.

 Procure fazer atividades físicas para reduzir a ansiedade.

 Adesivos e gomas de mascar de nicotina ajudam a superar a crise de abstinência e podem ser comprados sem receita médica. Mas atenção: siga a orientação da embalagem que recomenda não fumar cigarros enquanto consome esse tipo de produto. Afinal, eles contêm a nicotina sintética na fórmula e foram desenvolvidos para suprir por um tempo a ausência do tabaco no sangue.

 O tratamento requer o acompanhamento multidisciplinar e até a administração de antidepressivos. Para mais informações, inclusive sobre tratamentos gratuitos, disque Pare de Fumar (0800 703-7033).

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