
No século IV a.C., os anatomistas gregos estranhavam, ao dissecar cadáveres, encontrar os vasos que hoje chamamos de artérias, sem qualquer substância sangüínea em seu interior. Com o parco conhecimento fisiológico e anatômico da época, eles deduziram, então, que as artérias fossem condutos, estruturas de um encanamento que levava ar para dentro do organismo. Foi somente em 1615 que o médico inglês William Harvey, empregando os princípios de medição propostos pelo físico e astrônomo italiano Galileu Galilei, demonstrou que a existência da circulação sangüínea é condição necessária para o funcionamento do coração.
Quatro séculos depois, os números que atestam a progressão das doenças relacionadas ao coração e aos vasos que o irrigam e a todo o corpo faria tremer aqueles primeiros anatomistas. Apesar do avanço espetacular ocorrido na segunda metade do século em termos de fisiologia das doenças cardiovasculares (DCV), dos meios para diagnóstico e para o tratamento, a incidência alcançou proporções epidêmicas e permanece como a principal causa de morte no mundo. Ela é identificada, por exemplo, em 46% dos norte-americanos, 34% dos espanhóis e 27,5 dos britânicos. No Brasil, representa 32% da mortalidade geral.
Faixa etária delicada
O coração tem a maior das responsabilidades em um ser vivo: fazer o sangue circular por todo o organismo, levar oxigênio e nutrientes para as células e sangue carregado de gás carbônico para os pulmões a fim de oxigená-lo. Qualquer desajuste nessa bomba - que deve funcionar com grande precisão - pode provocar problemas sérios e, muitas vezes, morte súbita, especialmente em homens e mulheres acima dos 40 anos. Todas as estatísticas de incidência da doença mostram que são bem menos freqüentes as complicações cardíacas antes dessa faixa etária.
| A cartilha básica da prevenção da DCV |
? Os estudos mostram
que movimentar-se
ativamente três a cinco vezes por semana, no mínimo durante 30 minutos, já se reflete em beneficio cardiovascular.
? Quem se dispõe a caminhar, deve ter como meta um preparo físico que o faça percorrer 100 metros em um minuto. Faça o teste no quarteirão de sua rua.
? Reduza o tempo diante da televisão, especialmente se incluir o hábito de 'beliscar' guloseimas.
? Habitue seu corpo a uma dieta mais leve. Fontes de carboidratos (como pães), gorduras e açúcares devem ser consumidas com parcimônia.
? Meça a pressão arterial anualmente se você tiver menos de 40 anos. Quem passou dessa fase deve medi-la a cada seis meses.
? Consulte o médico antes de iniciar um programa de exercício ou alterar seu padrão alimentar.
Fontes: Federação Mundial do Coração; José Antonio Ramires; Ministério da Saúde |
Segundo informações do Sistema de mortalidade do Ministério da Saúde (SIM), a DCV representou 32% dos óbitos em 2002, o equivalente a 267.496 mortes e 14% das internações na faixa etária de 30 a 69 anos (1.150.000/ano), tornando a doença uma das campeãs de mortalidade, apesar dos inúmeros avanços terapêuticos obtidos na última década. Os dados reproduzem proporcionalmente os números encontrados em países desenvolvidos. O número de novos infartados no Brasil é estimado entre 300 a 400 mil por ano - e a mortalidade gira em torno de 10%.
Entre os principais fatores de risco, estão hipertensão arterial, sobrepeso e obesidade, sedentarismo, tabagismo
e a hipercolesterolemia (taxas elevadas
do colesterol LDL, que causa danos
quando em excesso). "As doenças que mais prevalecem na população são a hipertensão arterial, as dislipidemias ou alterações do colesterol, que ampliam muito o risco para doenças cardiovasculares, como também a obesidade e o diabetes, ambas em franco crescimento", afirma José Antonio Ramires, diretor da cardiologia clínica do Instituto do Coração (InCor).
O ataque cardíaco ou infarto agudo ocorre quando o músculo cardíaco (miocárdio) não recebe oxigênio em quantidade suficiente e começa a morrer ou necrosar. O infarto é o ápice de um problema que se agrava continuamente por vários fatores. Quando o coração falha, traz à tona um processo que evolui por anos, mas pode ter um desenlace súbito sob a forma do infarto. É a formação do ateroma ou placa de gorduras (que resulta do excesso de colesterol circulante) que causa estreitamento da passagem do sangue pelas artérias.
Ritual de prevenção
A popular arteriosclerose, palavra de origem grega que significa 'artérias endurecidas' resulta, ao longo do tempo, na doença arterial coronariana (DAC), que ocorre quando as artérias coronárias vão se estreitando e diminuem até ficarem totalmente obstruídas. Quando a obstrução se torna grave (cerca de 40% ou mais de oclusão do vaso), a DAC pode causar a angina ou o infarto.
Os cardiopatas podem ainda vir a manifestar duas doenças freqüentes: a angina pectoris e a insuficiência cardíaca. Na primeira, a pessoa sente dor no peito todas as vezes que faz alguma atividade que exija esforço físico. É o nome dado à dor que antecede o infarto, geralmente iniciada na altura do peito, irradiando-se para o braço esquerdo, mas nem todas às vezes é um prenúncio do evento agudo.
A angina também resulta de irrigação insuficiente do coração e, dependendo do caso, desaparece alguns minutos depois que surge, após a suspensão do esforço físico. Por essa razão é denominada de angina instável, e exatamente pela característica de aparecer quando menos se espera e seu desdobramento ser uma incógnita é que o doente necessita de acompanhamento médico constante.
Quando o diagnóstico é de insuficiência cardíaca, significa que o coração tornou-se incapaz de bombear sangue em quantidade suficiente para o corpo, diminuindo o fluxo sangüíneo aos órgãos vitais, como cérebro, rins e o próprio coração, além de outros tecidos e órgãos. A diminuição desse fluxo nos rins causa retenção de sal e água e aumenta o volume total do sangue.
Hipertensão arterial, DAC, infarto e doenças das válvulas, entre outras cardiopatias, deságuam na insuficiência cardíaca. "Quem tem um histórico familiar de hipertensão precisa se manter no peso ideal, praticar atividade física, não exagerar no sal e no álcool para prevenir alterações drásticas em sua pressão", aponta o cardiologista Décio Mion, chefe da Unidade de Hipertensão do Hospital das Clínicas (FMUSP). É certo que, uma vez instalada a insuficiência cardíaca, os pacientes serão sérios candidatos ao transplante cardíaco.
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