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Edição 25 - Maio/2006
 
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  Gente que deu a volta por cima

POR YARA ACHÔA

FOTOS: RODRIGO KRISTENSEN."A deficiência não paralisa minha vida"

As limitações motoras não impedem o assistente de serviço ao cliente Anderson Sant'Ana, 25 anos, de fazer nada - até mesmo a prática de esportes radicais. Ele realizou seu quarto salto de pára-quedas e agora se prepara para um vôo solo

Meu nascimento foi normal, sem qualquer intercorrência. Como a maioria dos bebês, me desenvolvia bem até que, aos seis meses, devido a uma febre alta, tive uma convulsão. Como seqüela veio a deficiência física: perdi os movimentos dos braços e das pernas. Na época os médicos diagnosticaram como paralisia cerebral, dando perspectivas nada animadoras à minha família. Um deles chegou a dizer que eu só chegaria até os sete anos; outro falou que se eu superasse essa idade, viveria em uma cadeira de rodas. Minha mãe não aceitou essas sentenças e passou a procurar outras formas de tratamento.

Quando completei um ano, por recomendação de um neurologista, comecei a fazer fisioterapia com a especialista Terezinha Ikeda Shibuta. Os primeiros resultados, no entanto, demoraram a aparecer. Só aos quatro anos dei meus primeiros passos - ainda com muita dificuldade. Falei de maneira compreensível aos sete. Apesar das respostas lentas ao tratamento, minha mãe e a equipe da fisioterapia não desistiam de buscar novos progressos. Praticamente não tive infância. Não podia brincar na rua ou jogar bola. Vivia na fisioterapia ou em casa fazendo alongamento. O esforço valeu a pena: aos poucos fui recuperando os movimentos. Passei ainda por cinco cirurgias, porque os ossos e músculos cresciam e os nervos não acompanhavam.

É claro que, mesmo assim, apresentava dificuldades motoras, o que me fez passar por situações embaraçosas na escola. Certa vez, por achar que não acompanhava minha turma, uma professora me colocou para fora da classe.Em uma outra situação, um colega me derrubou e começou a rir, duvidando que eu me levantasse. Minha mãe brigou contra o preconceito contra os deficientes, exigindo condições melhores para que pudesse estudar como os outros. Aos poucos a escola foi se adaptando, colocando corrimão para apoio, banheiros próximos à sala de aula, entre outras modificações necessárias.

UM NOVO DESAFIO A CAMINHO
Na adolescência também passei por uma fase delicada. Comecei a questionar 'por que o pessoal consegue fazer isso e eu não', 'por que todo mundo namora e eu não'. Entrei em depressão, a ponto de não querer sair de casa. Mais uma vez a equipe da fisioterapia, com a ajuda de uma psicóloga, me ajudou. Entendi que tinha apenas limitações e teria de acostumar com meu jeito. Hoje levo uma vida normal. Como todo jovem, tenho um lado social intenso, namoro, vou para baladas. E comecei a sentir um gostinho especial por esportes radicais - o que não vivi antes, vou viver agora.
Depois de ver uma reportagem sobre pára-quedismo na televisão, procurei uma empresa especializada e perguntei se um deficiente físico poderia saltar.

Diante da resposta afirmativa, apesar de minha família achar uma loucura - ainda mais porque também tenho medo de altura -, decidi que iria encarar o desafio. Os instrutores da Azul do Vento me deram incentivo e segurança para realizar meu projeto. O primeiro salto, junto com um instrutor, aconteceu em fevereiro de 2005 e de lá para cá já realizei outros três, ainda acompanhado, mas já fazendo manobras e até controlando o pára-quedas. Agora me preparo para um salto solo.
Quando a porta do avião se abre, o medo desaparece. Pára-quedismo é terapia, me faz ter mais confiança e motivação para enfrentar o dia-a-dia. E ajuda a mostrar que, com deficiência ou não, é preciso curtir a vida e não ficar reclamando."

ENTENDA BEM

Fisioterapeuta há 38 anos, Terezinha Ikeda Shibuta, de Campinas (SP), acompanha o caso de Anderson desde o início. "Se a criança apresenta um sinal de vida, é porque tem condições de se desenvolver. E o quadro não era de paralisia cerebral e sim de disfunção neuro-motora", diz. Junto com uma equipe multidisciplinar - que envolvia fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional - ela utilizou o Método Bobath. "O tratamento faz com que se aproveite o que o indivíduo tem a oferecer. O Anderson apresentava potencial, não foi milagre."

O conceito Bobath é um tipo especializado de fisioterapia, em que o paciente aprende a sensação do movimento e não o movimento em si. O objetivo é diminuir a espasticidade muscular e introduzir as ações automáticas e voluntárias, a fim de preparar o indivíduo para os movimentos funcionais, inibindo as posturas anormais. Hoje, diante da independência de seu paciente, Terezinha comemora: "É maravilhoso ver o resultado. Por isso digo aos pais que não desanimem, mesmo que o tratamento seja longo. É fundamental procurar uma equipe especializada em neurologia e quanto mais cedo começar, melhor."

AGRADECIMENTO: AZUL DO VENTO


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