
1 O que
é ácido úrico?
É um produto natural do organismo, já que 90% dele é formado a partir
do metabolismo de uma substância chamada purina (que é um dos componentes
do DNA). Apenas 10% vêm dos alimentos consumidos diariamente. Uma parte
desse total costuma ser eliminada pela urina, enquanto que o restante
fica circulando no corpo sem causar problemas de saúde. O índice de ácido
úrico, no entanto, não deve ultrapassar o nível máximo de 6,8 mg por 100
ml de sangue. Caso contrário, o excesso dessa substância pode virar cristais,
que vão sendo depositados nas articulações e podem levar a um intenso
processo inflamatório, com inchaço das juntas. E pelo menos 20% dos casos
de ácido úrico elevado geram um estado dolorido, conhecido como gota.
2 Por que
ocorre o desequilíbrio?
Por dois motivos metabólicos: ou o paciente é um hiperprodutor ou um
hipoexcretor. No primeiro caso, o organismo está produzindo muito ácido
úrico e, mesmo tendo uma excreção normal, não consegue eliminar o suficiente
para deixar a taxa baixa. No segundo (que corresponde a 90% dos pacientes),
apesar de a produção ser normal ou aumentada, os rins só conseguem eliminar
pouco ácido úrico.
3 Como é
feito o diagnóstico?
Primeiramente, com um exame de sangue para conhecer os níveis de ácido
úrico na circulação. E, depois, para saber se a excreção está diminuída,
os médicos costumam pedir um exame de urina (uricosuria de 24 horas),
que indica qual a dosagem eliminada durante o dia. A partir da comparação
destes dois resultados o médico indica o tratamento mais adequado para
cada caso, uma vez que existem remédios tanto para inibir a produção como
para aumentar a excreção. Outro teste importante é feito com o líquido
tirado das articulações. Este só é indicado no caso de pacientes que apresentam
inchaço nas juntas para verificar se há presença de cristais de ácido
úrico nas articulações e, consequentemente, riscos de ocorrer uma crise
de gota.
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Quais os males decorrentes do excesso de ácido úrico?
Para a maioria das pessoas, este quadro é assintomático, não apresenta
nenhum incômodo, e só é detectado se o médico pedir um exame específico,
em um check-up, por exemplo. Mas 20% dos que têm o ácido úrico elevado
desenvolvem crises de gota, principalmente homens entre 30 e 50 anos e
mulheres na pós-menopausa. Nesse grupo também estão incluídos obesos e
hipertensos. Ou seja, com a formação de cristais em uma articulação, o
paciente tem uma inflamação que se torna muito dolorosa, vermelha e inchada.
A pessoa mal consegue suportar o roçar da roupa ou dos lençóis nas regiões
afetadas. Em geral, a gota começa na articulação do dedão do pé (situação
conhecida como podagra). Muitos pacientes entram no consultório de chinelo
e mancando. À medida que o problema evolui, outras articulações podem
ser atingidas, entre elas os tornozelos e joelhos. Outra complicação possível
decorrente dos altos níveis de ácido úrico no sangue são os depósitos
da substância debaixo da pele, nas articulações ou em órgãos, como os
rins. São nódulos duros de cristais, bolinhas brancas semelhantes a gotas
de leite condensado, chamados de tofos. Por isso mesmo, também há chance
de formação de cálculos renais, bem como de nefropatia (insuficiência
renal) por ácido úrico. Neste caso, há um acúmulo de cristais dentro dos
túbulos renais, provocando uma obstrução à passagem da urina.
5 Depois
de uma crise de gota, é preciso buscar tratamento?
Sim. Do contrário, o intervalo entre as crises diminui e a intensidade
da dor pode aumentar. O paciente também corre o risco de desenvolver uma
poliartrite, ou seja, uma inflamação em várias juntas ao mesmo tempo ou
até uma destruição das articulações. Há um aumento ainda das chances de
doenças cardiovasculares e problemas nos rins.
6 A alimentação
pode impedir que o índice de ácido úrico se eleve?
Não. Porque 90% do ácido úrico vêm do metabolismo da purina. É claro
que, quando a pessoa tem um índice de ácido úrico muito elevado, os especialistas
aconselham evitar alimentos como crustáceos, carnes vermelhas, lentilha
e feijão, que contêm excesso de ácido úrico. Um outro desencadeante da
crise de gota são as bebidas alcoólicas. E a cerveja é uma das que está
intimamente ligada ao agravamento da enfermidade. Por isso deve ser consumida
com muita moderação por quem já teve uma crise ou possui o ácido úrico
elevado. É importante saber que, quando o índice estiver alto, deve-se
evitar qualquer tipo de bebida alcoólica. Porém, se a vontade for muita,
é preferível optar pelo vinho. Outro ponto essencial no tratamento é seguir
uma dieta alimentar equilibrada e pouco calórica, para controlar a obesidade
e a hipertensão.
7 Quando
os índices se normalizam, significa que o indivíduo está curado?
Não. Depois de controlada a crise e estabelecidos índices aceitáveis
de ácido úrico no sangue, minimiza-se a chance de novas crises e complicações.
Mas vale ressaltar que a pessoa que já tem esse problema precisa se acostumar
a ter uma vida mais saudável com uma alimentação de baixas calorias. E
ainda tentar emagrecer e verificar sempre a pressão arterial - até para
contribuir para a prevenção dos problemas coronarianos. Quando o indivíduo
esquece o quanto a crise de gota o fez sofrer, pode relaxar - daí come
e bebe demais, engorda, não controla a pressão e o resultado é que a dor
volta com intensidade ainda maior do que a da última crise.
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Evelin Goldenberg, professora de Clínica Médica da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) e reumatologista do Hospital
Albert Einstein |
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