Viva Saúde
Edição 20 - Dezembro/2005
 
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  Os sentimentos interferem na festa

FOTO : DIVULGAÇÃO
POR SILVANA MARTANI, PSICÓLOGA DA CLÍNICA DE ENDOCRINOLOGIA DA BENEFICÊNCIA PORTUGUESA DE SÃO PAULO
O natal está chegando e com ele a idéia do final de mais um ano, de mais uma etapa concluída e dos objetivos alcançados. Quando esta festa se aproxima a rotina das pessoas e das cidades se altera em uma grande efervescência que acaba na noite do dia 25. Compras de presentes, trânsito, almoços de final de ano e férias impõem um ritmo diferente que, somado à rotina, pode gerar um estresse que para alguns é até sentido como positivo, mas para outros representa um pesadelo. Não é raro ouvirmos comentários negativos dos preparativos, quando tudo é correria, desgaste, expectativa e afeto.

Uma data desse porte remete todas as pessoas às suas lembranças mais antigas e recria uma atmosfera que pode ser recheada de recordações - boas ou não. Se o que temos para lembrar é bom, tudo vai ser vivido com magia e comoção. Preparar a casa, providenciar os presentes, juntar os familiares e cumprimentar os amigos são ações que somam alegria e deixam recordações felizes. Se as imagens do passado são ruins, tudo assume cor de obrigação. Sim, as lembranças norteiam parte de nossos gestos e são o gatilho, muitas vezes, para o que fazemos.

Fatos negativos associados a datas comemorativas podem gerar comprometimentos emocionais que vão limitar e distorcer as circunstâncias, tais como fobias, medo e ansiedade. A data deixa de representar o fato da celebração para se tornar a história daquele indivíduo e suas emoções. Dessa forma, a pessoa revive na festividade sua situação traumática e tende a evitá-la. Além disso, o natal está colado ao final de ano que por ser um marco de término de um ciclo, para muitos é o momento ideal para avaliar conquistas e planejar os próximos desafios.

"DATAS DE GRANDE APELO AFETIVO INTENSIFICAM COMPROMETIMENTOS EMOCIONAIS E DOENÇAS JÁ EXISTENTES, LEVANDO A UMA CRISE POR CONTA DO ESTRESSE QUE A COMOÇÃO PROVOCA"

Àqueles que conseguiram concretizar seus desejos, com certeza se aproxima um próspero ano novo. Mas para quem os sonhos e objetivos não foram realizados está próximo mais um momento de confrontação com seu fracasso e frustração - o que é difícil comemorar. Outros sentem a época como algo melancólico e preferem se isolar, procurando refúgios onde se sintam livres das obrigações sociais que a data impõe. Para estes, não ocorreu nada traumático que justificasse a desilusão. Esse sentimento, na realidade, deve ter começado há tempos, talvez por um excesso de expectativa ou porque o indivíduo cansou de esperar por coisas que nunca teria.

Isso nada tem a ver com desejos materiais e sim com sonhos e necessidades guardadas dentro do coração. O natal representa união e muitos não têm a quem ou por que se unir. Famílias problemáticas, desfeitas ou que estão atravessando momentos difíceis podem transformar uma data como essa em um verdadeiro campo de guerra, onde se medem força e prestígio. Em condições desfavoráveis e se sentindo 'obrigado' a estar bem, o indivíduo pode experimentar sentimentos como angústia e depressão capazes de levá-lo a um quadro de desequilíbrio comportamental que merece atenção.

Circunstâncias ou datas de grande apelo afetivo intensificam comprometimentos emocionais e doenças já existentes, levando a uma crise por conta do estresse que a comoção provoca. Um grande natal talvez não seja aquele cheio de presentes caros na casa maravilhosa, cercado de gente linda, mas aquele possível, que tem exatamente a nossa cara e o nosso tamanho - o que acontece em nossa casa, com a comida que podemos oferecer, com o doce da avó que sempre é muito bom, com a roupa confortável, o sorriso franco e com lembranças que mostram muito mais carinho do que poder e dinheiro.

A época é de união. Devemos renovar nossos votos de amor a nós e a todos que estimamos e é isso que é importante priorizar. Não nos livramos magicamente das mazelas para viver o natal, mas podemos abrir um espaço para refletir, descansar e renovar as forças.


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