Ele surge como um aumento localizado de volume, algo que se parece com um pequeno botão sobre o revestimento intestinal. Sem fazer alarde, cresce lentamente por três ou quatro décadas. Daí tende a invadir a parede do intestino e os gânglios linfáticos vizinhos e pode lançar células na corrente sangüínea, alcançando outros órgãos - em geral, o fígado, o pulmão e os ossos. Quando os sintomas finalmente se manifestam - cólicas abdominais, mudanças freqüentes no ritmo intestinal, presença de sangue nas fezes - já deve ter feito um estrago considerável.
O câncer de intestino grosso e reto (colo-retal) é a segunda maior causa de mortalidade por câncer nos países ocidentais. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima o aparecimento de 26.050 novos casos no Brasil em 2005. Infelizmente, metade só é descoberta no estágio avançado, quando as chances de cura são menores, a doença ameaça a vida e ainda traz conseqüências desagradáveis para o convívio social, como o uso da bolsa de colostomia.
Quem corre perigo
Mas esse quadro pode ser revertido. "O câncer colo-retal é passível de prevenção", avisa o oncologista Frederico Perego Costa, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Mudanças na alimentação e atividade física regular ajudam. Porém, o mais importante é fazer exames periódicos que acusam a presença de lesões precursoras de câncer ou identificam a enfermidade em estágio inicial, quando as possibilidades de cura giram em torno de 90%.
Nos casos mais graves, em que o tumor já se espalhou, novas drogas começam a ampliar a sobrevida dos pacientes. Elas foram destaques da primeira Conferência Interamericana de Oncologia, realizada em Buenos Aires, em outubro. O mal ataca principalmente entre os 50 e 70 anos de idade - 77,9% dos atingidos já sopraram 50 velinhas. Na grande maioria, trata-se de um evento esporádico.
Ou seja, apenas 10% dos pacientes herdam uma tendência genética para o tumor. Segundo a geneticista Cassandra Corvello, responsável pelo Setor de Genética Molecular do Fleury Centro de Medicina Diagnóstica, em São Paulo, mutações nos genes MSH2 e MLH1, encarregados de reparar danos no DNA, aumentam o risco de desenvolvê-lo. Já existem testes capazes de analisar ambos os genes na íntegra e detectar mutações perigosas. Mas eles não são realizados de forma aleatória.
Afinal, um resultado positivo não significa que a pessoa terá obrigatoriamente o tumor, mas suas chances aumentam bastante: se 2% da população apresenta câncer colo-retal aos 70 anos, entre os portadores de mutações as probabilidades de manifestar a doença na mesma faixa etária sobem para 80%. Um resultado negativo também não é garantia de escapar ileso, afinal podem existir mutações ainda não conhecidas.
Por essas razões, as análises genéticas são feitas apenas mediante solicitação médica em pessoas com alto risco. Normalmente, testa-se primeiro quem já adoeceu e depois os familiares. Os filhos de um portador possuem 50% de chances de terem herdado a mutação. Então, recomenda-se acompanhamento médico rigoroso visando evitar o aparecimento do tumor.
NOS ESTÁGIOS INICIAIS, O CÂNCER COLO-RETAL COSTUMA SER ASSINTOMÁTICO. PARA O DIAGNÓSTICO PRECOCE, RECOMENDA-SE A COLONOSCOPIA AOS 50 ANOS. NA AUSÊNCIA DE ALTERAÇÕES, REFAZER O EXAME 10 ANOS DEPOIS. CASO EXISTA ALGUM PÓLIPO, ELE DEVE SER ANALISADO. NÃO SENDO MALIGNO, REPETI-LO A CADA TRÊS ANOS
Como se defender
Estudos populacionais ressaltam a importância da alimentação. A incidência do câncer colo-retal é menor em países com alta ingestão de fibras, encontradas em verduras, frutas e cereais. "As fibras favorecem a movimentação intestinal. As fezes não ficam retidas dentro do órgão, liberando toxinas, mas são eliminadas logo depois de serem produzidas", explica o cirurgião oncológico Eduardo Akaishi, professor doutor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.
A dieta ocidental típica privilegia produtos refinados (pobres em fibras), além de exagerar nas gorduras e nas proteínas animais (a carne vermelha tende a prender o intestino). O consumo excessivo e prolongado de álcool também tem efeito nocivo. E fumar um maço de cigarros por dia parece dobrar o perigo. A vida sedentária é outro grande inimigo do intestino. Pesquisas mostraram que exercícios moderados colaboram para a atividade intestinal. Já os excessos não são bemvindos.
"Sobrecarregam o corpo de substâncias nocivas, os radicais livres", justifica Eduardo Akaishi. O principal aliado, no entanto, é a colonoscopia: exame em que se introduz no organismo um tubo flexível com fibra óptica para visualizar o interior do reto e todo o intestino grosso. Verrugas (pólipos) e outras lesões precursoras de câncer são vistas e removidas no ato com instrumentos cirúrgicos.
Por isso, os oncologistas recomendam que toda pessoa se submeta ao procedimento aos 50 anos e cada vez menos solicitam o teste de sangue oculto nas fezes. "Como o câncer colo-retal nem sempre sangra no início, pode dar um resultado falso negativo, o que atrasa o diagnóstico. Além disso, não possibilita ao médico atuar preventivamente, pois não sugere a presença de lesões pré-malignas", diz o cirurgião.
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