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Edição 2 - Junho/2004
 
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  "Aprendi a ver a vida de outra forma"
Walquíria Pelarigo Daniel, 30, de Rio Claro (SP), lida bem com o glaucoma e a idéia de ficar cega

DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI

Foto: Fernando Gardinali.Quando abri os olhos pela primeira vez, minha avó foi a única a notar: eles não eram do mesmo tamanho. Ninguém deu importância ao detalhe até meu olho esquerdo começar a inchar e a ficar acinzentado. Com cinco meses de vida, fiz a primeira cirurgia. Tinha glaucoma congênito e poderia ficar cega. Felizmente, a doença afetava só um lado.

Sofri muito com minhas limitações, principalmente na infância. Até os nove anos, passei por mais duas cirurgias e precisava de doses diárias de colírio. Só assistia à televisão grudada na tela. Saía piscando nas fotos, porque a claridade me incomodava. Na escola, não enxergava as linhas do caderno e, para seguir as aulas, usava um tipo de binóculo de uma lente só, que me deixou marcada como a 'caolha' e a 'coruja'. Aparentemente parecia forte, mas não era bem assim. No ginásio até que estava bem, comecei a namorar e me sentia como qualquer outra adolescente. Porém, aos 16 anos, recebi a notícia: tinha glaucoma também no lado direito e deveria operar. Minha mãe se desesperou e eu, para não piorar as coisas, tentei segurar a onda até a cirurgia. Quando deitei na maca, desabei em choro. O desabafo durou até o dia seguinte. Só parei quando uma mulher de incrível altoastral, e que não tinha um dos olhos, me consolou. Aquilo, para mim, foi um sinal de Deus. Caí na real, cresci na hora e passei a encarar as coisas de forma diferente.

Força interior
Fiz a sétima e última cirurgia aos 21 anos. Mais uma e meu olho pode 'desmanchar'. Não penso nisso. Hoje, valorizo cada minuto. Fiz pedagogia e pretendo lecionar para cegos. Casei e tive duas filhas lindas. A mais velha se chama Maria Clara porque fiz promessa para que a luz sempre a acompanhasse. Consegui. Elas são saudáveis e me dão muita força. Não sei se ficarei cega, mas estarei forte e preparada se isso acontecer.

DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI

ENTENDA BEM
 
Infográfico: Marcelo Garcia.
O glaucoma aumenta a pressão intra-ocular.

Como se dá o problema?
O glaucoma congênito é uma doença degenerativa caracterizada pela má formação do olho e responsável por cerca de 8% dos casos de cegueira infantil. "Por inúmeras razões, não necessariamente hereditárias, há um aumento da pressão intra-ocular que impede a passagem de um líquido produzido naturalmente na região, causando lesão no nervo óptico e perda progressiva da visão", explica a oftalmologista Celeste Messetti, de Rio Claro (SP).

Entre os principais sintomas estão a intolerância à luz (fotofobia), redução do brilho e aumento no diâmetro da córnea ou do tamanho do globo ocular. Ainda não há cura para a doença. Mas tratamento e acompanhamento imediatos, assim que a criança nasce, podem evitar danos mais graves ou irreversíveis à visão.

 

Infográfico: Marcelo Garcia. Foto: Fernando Gardinali. Assistente de fotografia: Gustavo Machado. Realização: Lia Guimarães. Produção: Mari Nascimento e Viviane Silva. Cabelo e maquiagem: Pedro Villar (We Angel). Blusa: Ana Capri. Malha infantil: Chicletaria.



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