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"Aprendi a ver a vida de outra forma" Walquíria Pelarigo Daniel, 30, de Rio Claro (SP), lida bem com o glaucoma e a idéia de ficar cega
DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI
Quando
abri os olhos pela primeira vez, minha avó foi a única a notar: eles não
eram do mesmo tamanho. Ninguém deu importância ao detalhe até meu olho
esquerdo começar a inchar e a ficar acinzentado. Com cinco meses de vida,
fiz a primeira cirurgia. Tinha glaucoma congênito e poderia ficar cega.
Felizmente, a doença afetava só um lado.
Sofri muito com minhas limitações, principalmente na infância. Até os
nove anos, passei por mais duas cirurgias e precisava de doses diárias
de colírio. Só assistia à televisão grudada na tela. Saía piscando nas
fotos, porque a claridade me incomodava. Na escola, não enxergava as linhas
do caderno e, para seguir as aulas, usava um tipo de binóculo de uma lente
só, que me deixou marcada como a 'caolha' e a 'coruja'. Aparentemente
parecia forte, mas não era bem assim. No ginásio até que estava bem, comecei
a namorar e me sentia como qualquer outra adolescente. Porém, aos 16 anos,
recebi a notícia: tinha glaucoma também no lado direito e deveria operar.
Minha mãe se desesperou e eu, para não piorar as coisas, tentei segurar
a onda até a cirurgia. Quando deitei na maca, desabei em choro. O desabafo
durou até o dia seguinte. Só parei quando uma mulher de incrível altoastral,
e que não tinha um dos olhos, me consolou. Aquilo, para mim, foi um sinal
de Deus. Caí na real, cresci na hora e passei a encarar as coisas de forma
diferente.
Força interior
Fiz a sétima e última cirurgia aos 21 anos. Mais uma e meu olho pode 'desmanchar'.
Não penso nisso. Hoje, valorizo cada minuto. Fiz pedagogia e pretendo
lecionar para cegos. Casei e tive duas filhas lindas. A mais velha se
chama Maria Clara porque fiz promessa para que a luz sempre a acompanhasse.
Consegui. Elas são saudáveis e me dão muita força. Não sei se ficarei
cega, mas estarei forte e preparada se isso acontecer.
DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI
Infográfico: Marcelo Garcia. Foto: Fernando Gardinali.
Assistente de fotografia: Gustavo Machado. Realização: Lia Guimarães.
Produção: Mari Nascimento e Viviane Silva. Cabelo e maquiagem: Pedro Villar
(We Angel). Blusa: Ana Capri. Malha infantil: Chicletaria. |
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