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Gente que deu a volta por cima
"O AVC me fez mudar muitos valores" A escritora Marilene Lopes, 52 anos, transformou sua rotina após sofrer um acidente vascular cerebral e conta como é a experiência de vencê-lo dia após dia
POR LILIAN HIRATA
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| A jornalista aprendeu a dar atenção às coisas simples |
Nasci em Ubá, em Minas Gerais, e fui educada para casar e cuidar apenas do lar. Estudei em colégio interno e, após um intercâmbio nos Estados Unidos, decidi morar no Rio de Janeiro, contrariando meus pais, pois precisava provar que podia viver por conta própria. Como meu avô estava no Rio tratando de um câncer, me ofereci para cuidar dele na mesma época em que criava raízes na cidade. Tempos depois, já empregada como secretária, ingressei na faculdade de comunicação.
Tornei-me uma profissional bem-sucedida e workaholic. A carreira estava acima de tudo. Meus amigos, parentes e até a saúde ficavam em segundo plano. Minha rotina como diretora de comunicação de multinacional era de, no mínimo, 15 horas diárias, inclusive nos finais de semana. Fumava excessivamente, tinha insônia e dores no corpo, típicos sintomas de estresse, mas ignorava tudo isso.
Um dia, após uma noite maldormida, levantei com o braço direito paralisado. Não dei importância até notar que também não conseguia falar. No escritório, tentei escrever o que estava acontecendo em busca de ajuda. Minha mão não obedecia, só saíam rabiscos.
Aos 48 anos, profissional de comunicação conhecida e uma referência na área, havia perdido a capacidade de me comunicar. Só chorava. Meus colegas pensaram que era uma crise nervosa " devido à sobrecarga de trabalho e me deram calmantes. Somente no dia seguinte fui submetida a exames que constataram um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que atingiu o lóbulo frontal esquerdo do cérebro, diminuindo o fluxo sangüíneo naquela região.
O início da luta
Minha capacidade de verbalização (falada e escrita) ficou comprometida, assim como a memória para eventos recentes. Era difícil acompanhar uma discussão, me perdia no meio dela. Isso se refletiu no trabalho, porém não admitia. Nas reuniões, cansava demais ao tentar me expressar. Preparava por escrito tudo o que tinha de falar, mas organizar as idéias também tomava bastante energia. Aliás, corria o risco de ter outro AVC por conta desses esforços.
Só me dei conta um ano após o ocorrido e me afastei da empresa. Não podia mais negar minhas limitações, mesmo sendo disciplinada nos tratamentos clínico e fonoaudiológico. Hoje, dedico-me às terapias com mais afinco e melhorei consideravelmente. Produzo peças de cerâmica, que estão sendo comercializadas. Voltei à faculdade para estudar psicologia, por prazer, e dou aula de comunicação em uma universidade do Rio.
O apoio da família e dos amigos foi de vital importância. Aprendi a ter prazer nas coisas simples e resolvi contar minha experiência no livro Antes que seja tarde, com o intuito de alertar as pessoas a buscar a qualidade de vida."
Entenda bem |
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O Acidente Vascular Cerebral (ou derrame cerebral) provoca a perda ou a diminuição das funções de uma área do cérebro, causada pela alteração súbita da circulação no local. Segundo o neurologista Carlos Medeiros de Holanda, chefe de equipe de neurocirurgia do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, o AVC é dividido em hemorrágico (hemorragia local) e isquêmico, que consiste na diminuição do fluxo sangüíneo em uma área cerebral. As seqüelas dependem da localização da lesão e de sua extensão. As mais comuns são a perda de movimentos, das capacidades de comunicação e intelectual, da percepção visual e sensorial e da memória. Os mais propensos a tê-lo são os que apresentam hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade e fumam. |
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