Viva Saúde
Edição 19 - Novembro/2005
 
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A visão médica sobre os mais diversos assuntos
  Tirando o peso das costas

Entre as principais queixas que chegam a mim no consultório estão as lombalgias ou, como são mais conhecidas, as dores lombares. Afinal, dados recentes atestam que 90% da população mundial, em algum momento de suas vidas, irão sentir algum desconforto nas costas.

O problema é que, freqüentemente, atendo pacientes com pedidos do tipo: "por favor, doutor, resolva meu problema, pois amanhã preciso trabalhar, dançar, jogar tênis, viajar...". Como se eu, ou qualquer outro médico, fosse capaz de fazer aquela dor desaparecer para sempre, em um passe de mágica.

Há também aqueles que, após passarem por várias sessões de massagem, não conseguem livrar-se do incômodo e depositam no reumatologista toda a esperança de cura. Nada contra os massagistas profissionais. Mas a demora por uma avaliação médica mais detalhada pode retardar o diagnóstico de uma eventual doença mais séria.

Por isso, quando atendo doentes com essa reclamação, costumo demonstrar que existem diversas razões para o mal. As fisgadas incômodas podem ser conseqüência de uma lesão de ligamento, de um pinçamento de nervo por uma hérnia de disco ou de alguma enfermidade. Também há chance de estarem relacionadas à má postura ou a traumas.

Quanto às formas de manifestação, a lombalgia do tipo aguda, em geral, apresenta uma única razão para as dores. Neste caso, o tratamento é mais direcionado e o resultado, mais rápido. Mas se a dor lombar persiste por mais de três meses, ela já é considerada crônica e, na maioria das vezes, está ligada a um conjunto de causas, como má postura, obesidade, falta de condicionamento físico, encurtamentos musculares e até distúrbios emocionais. Confuso, não? Imagine então explicar tudo isso a uma pessoa com dor, impaciente e à espera de um milagre. A tarefa não é fácil, porém é de fundamental importância.

"O MÉDICO NÃO TEM O PODER DE CURAR A LOMBALGIA EM UM PASSE DE MÁGICA. O ALÍVIO DAS DORES DEPENDE DE MUITA FORÇA DE VONTADE E EMPENHO DO PACIENTE"

O sucesso do tratamento, principalmente nos casos crônicos, dependerá de uma cooperação muito grande por parte do doente, uma vez que ele terá de mudar vários hábitos incorporados à sua rotina durante anos.

Por exemplo, uma paciente obesa, com lombalgia crônica, coluna curva, abdômen proeminente e dificuldades para se locomover e sentar. Para aliviar suas dores terei de orientá-la, antes de mais nada, a se esforçar para fazer um regime dietético rigoroso e iniciar uma atividade esportiva para perder peso.

Vamos supor agora que ela consiga emagrecer e melhore o condicionamento físico. Será o suficiente? Algumas vezes sim, em outras há necessidade de investir em cuidados complementares, como exercícios feitos com o auxílio de fisioterapeutas que busquem uma reeducação da postura corporal.

Sem contar o apoio emocional. A tensão, a ansiedade e a depressão que podem acompanhar todas essas mudanças também devem ser tratadas por psicólogos e terapeutas especializados.

Mas e os medicamentos, para que servem? Eles são muito importantes, desde que usados adequadamente. Servem para aliviar dores e permitir ao doente realizar fisioterapia e atividades esportivas. O perigo só existe quando são transformados em amuletos, sendo consumidos indiscriminadamente, muitas vezes sem indicação médica.

As pessoas precisam saber que a solução para os males causados pelas dores crônicas da coluna vai além da indicação de remédio e sessões de fisioterapia. Ela depende da capacidade do médico em orientar corretamente seu paciente, mas, principalmente, do comprometimento deste em corrigir atitudes e posturas simples, como sentar, abaixar, levantar, andar e alimentar-se de forma saudável. Quem sofre com lombalgia deve entender que não existe um prazo para o fim do tratamento: se quiser tirar esse peso das costas, os novos hábitos deverão nortear sua vida para sempre.

 
DR. ROBERTO HEYMANN,
REUMATOLOGISTA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP) E PRESIDENTE DA COMISSÃO DE DOR, FIBROMIALGIA E OUTRAS SÍNDROMES DOLOROSAS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA
   


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