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Edição 18 - Outubro/2005
 
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A visão médica sobre os mais divers
  O pediatra e a família

POR LEONARDO POSTERNAK

Historicamente, o pediatra no século 19 focava a doença. Logo começou a observar a criança tanto doente quanto sadia e, depois disso, a contemplou inserida em um contexto: a família - relacionada à sociedade. Nesta instância se percebe que o pediatra interage nesses contextos, recebendo e dirigindo estímulos, positivos ou negativos.

O sistema criança-família-pediatra é complexo, com influências multidirecionais simultâneas, cuja reflexão e estudo nos permite identificar os mecanismos pelos quais o médico influencia a criança e a família, e vice-versa.

Mas antes, é preciso que o pediatra abandone a dicotomia costumeira entre mente e corpo, uma das seqüelas da nossa formação cartesiana. Senão, continuaremos a produzir perigosas cisões entre a mente e o corpo infantil, entre a criança e a família e entre esta e a sociedade. O pediatra deve ocupar-se com todas as correlações biólogicas, psicológicas e familiares do paciente.

É comum as famílias chegarem ao consultório para confirmar que tudo está bem ou por um sintoma diferente no pequeno. E sempre trazem junto carências, ansiedades, medos e a necessidade de alguém que os receba, ouça e compreenda. Não podemos esquecer que a família é um metabolizador emocional. Se é eficiente, promove a preservação da saúde, mas de seu fracasso poderá surgir a doença física ou mental. Nessa hora, os médicos precisam entender que não estão tratando uma doença em uma criança e sim um indivíduo doente e sua família. Às vezes o pequeno paciente apresenta o sintoma, mas quem está 'doente' é a família.

Para fazer esse trabalho integrador e preventivo temos que considerar que cada criança é única - e o mesmo serve para a família. A resposta, portanto, é particular e intransferível, não passível de normas rígidas e estereotipadas.

"O PEDIATRA DEVERIA ENTENDER QUE NÃO ESTÁ TRATANDO UMA DOENÇA INSTALADA EM UMA CRIANÇA E SIM UMA CRIANÇA DOENTE E A SUA FAMÍLIA"

Daí a necessidade de um discurso amplo e honesto com os pais sobre uma doença em seu filho e suas conseqüências no funcionamento do grupo.

Quanto aos pais, temos observado que 'a negação da enfermidade' e seus desdobramentos é reação comum ao aparecimento de um problema. Muitas vezes também é negada a possibilidade de o tratamento ter êxito, por exemplo. Isso os leva a uma escuta seletiva a qualquer tentativa de explicação.

Os pediatras deveriam perceber que nesse momento os pais estão com medo e dor, quase sempre ocultos sob o prisma de uma aparente coragem. Assim é mais fácil interceder para que estejam permeáveis a esses sentimentos.

É sempre bom lembrar: a história familiar nos oferece elementos para compreender a angústia em situações que parecem simples e sem perigo aparente.

Outro sentimento geralmente presente é a culpa, geradora de muito sofrimento. A raiva também poderá surgir e com freqüência ser dirigida ao pediatra, que deverá estar preparado para enfrentar e compreender essa reação como manifestação até certo ponto 'saudável' aos pais que estão próximos afetivamente de seus filhos.

Em vez de suprimir ou aplacar esses sentimentos, o médico pode se aprofundar e auxiliar a família a responder dúvidas típicas do aparecimento da doença.

Entender essas reações não significa deixar-se paralisar por elas. É algo a ser trabalhado cuidadosamente com a família. A isso devemos acrescentar a disponibilidade de compreender os fenômenos e, se possível, corrigir a estrutura. Senão, o pediatra pode aprender a fazer encaminhamentos claros, sem culpas e muito menos como uma maneira de soltar a 'batata quente' das mãos. A mensagem é: ter coragem de mudar o que pode ser mudado, de aceitar aquilo que não pode ser mudado e a sabedoria de reconhecer as duas situações.

 
POR LEONARDO POSTERNAK, PRESIDENTE DO INSTITUTO DA FAMÍLIA, MÉDICO PEDIATRA NO HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN, EM SÃO PAULO, E AUTOR DOS LIVROS E AGORA O QUE FAZER? A DIFÍCIL ARTE DE CRIAR OS FILHOS (ED. ÁGORA) E O DIREITO À VERDADE - CARTAS PARA UMA CRIANÇA (ED. GLOBO)
   


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