Historicamente, o pediatra no século 19 focava a doença. Logo começou
a observar a criança tanto doente quanto sadia e, depois disso, a contemplou
inserida em um contexto: a família - relacionada à sociedade. Nesta instância
se percebe que o pediatra interage nesses contextos, recebendo e dirigindo
estímulos, positivos ou negativos.
O sistema criança-família-pediatra é complexo, com influências multidirecionais
simultâneas, cuja reflexão e estudo nos permite identificar os mecanismos
pelos quais o médico influencia a criança e a família, e vice-versa.
Mas antes, é preciso que o pediatra abandone a dicotomia costumeira entre
mente e corpo, uma das seqüelas da nossa formação cartesiana. Senão, continuaremos
a produzir perigosas cisões entre a mente e o corpo infantil, entre a
criança e a família e entre esta e a sociedade. O pediatra deve ocupar-se
com todas as correlações biólogicas, psicológicas e familiares do paciente.
É comum as famílias chegarem ao consultório para confirmar que tudo está
bem ou por um sintoma diferente no pequeno. E sempre trazem junto carências,
ansiedades, medos e a necessidade de alguém que os receba, ouça e compreenda.
Não podemos esquecer que a família é um metabolizador emocional. Se é
eficiente, promove a preservação da saúde, mas de seu fracasso poderá
surgir a doença física ou mental. Nessa hora, os médicos precisam entender
que não estão tratando uma doença em uma criança e sim um indivíduo doente
e sua família. Às vezes o pequeno paciente apresenta o sintoma, mas quem
está 'doente' é a família.
Para fazer esse trabalho integrador e preventivo temos que considerar
que cada criança é única - e o mesmo serve para a família. A resposta,
portanto, é particular e intransferível, não passível de normas rígidas
e estereotipadas.
| "O
PEDIATRA DEVERIA ENTENDER QUE NÃO ESTÁ TRATANDO UMA DOENÇA INSTALADA
EM UMA CRIANÇA E SIM UMA CRIANÇA DOENTE E A SUA FAMÍLIA" |
Daí a necessidade de um discurso amplo e honesto com os pais sobre uma
doença em seu filho e suas conseqüências no funcionamento do grupo.
Quanto aos pais, temos observado que 'a negação da enfermidade' e seus
desdobramentos é reação comum ao aparecimento de um problema. Muitas vezes
também é negada a possibilidade de o tratamento ter êxito, por exemplo.
Isso os leva a uma escuta seletiva a qualquer tentativa de explicação.
Os pediatras deveriam perceber que nesse momento os pais estão com medo
e dor, quase sempre ocultos sob o prisma de uma aparente coragem. Assim
é mais fácil interceder para que estejam permeáveis a esses sentimentos.
É sempre bom lembrar: a história familiar nos oferece elementos para
compreender a angústia em situações que parecem simples e sem perigo aparente.
Outro sentimento geralmente presente é a culpa, geradora de muito sofrimento.
A raiva também poderá surgir e com freqüência ser dirigida ao pediatra,
que deverá estar preparado para enfrentar e compreender essa reação como
manifestação até certo ponto 'saudável' aos pais que estão próximos afetivamente
de seus filhos.
Em vez de suprimir ou aplacar esses sentimentos, o médico pode se aprofundar
e auxiliar a família a responder dúvidas típicas do aparecimento da doença.
Entender essas reações não significa deixar-se paralisar por elas. É
algo a ser trabalhado cuidadosamente com a família. A isso devemos acrescentar
a disponibilidade de compreender os fenômenos e, se possível, corrigir
a estrutura. Senão, o pediatra pode aprender a fazer encaminhamentos claros,
sem culpas e muito menos como uma maneira de soltar a 'batata quente'
das mãos. A mensagem é: ter coragem de mudar o que pode ser mudado, de
aceitar aquilo que não pode ser mudado e a sabedoria de reconhecer as
duas situações.