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Edição 15 - Julho/2005
 
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  "Perdi a visão aos sete anos"
Adriana Barsotti, 33 anos, psicopedagoga e pós-graduada em educação para deficientes visuais, conta como enfrentou as dificuldades e o preconceito para vencer na vida

POR DANIELA TALAMONI

Após ficar cega por causa de um tumor, ela precisou reaprender a viver
"Lembro muito pouco da época em que enxergava. Segundo meus pais, a partir dos cinco anos comecei a reclamar da minha visão, que falhava às vezes. Também sentia fortes dores de cabeça e, quando iniciei a vida escolar, era comum eu vomitar e ter de voltar para casa. Fiz peregrinação por médicos e nenhum desconfiou do tumor cerebral que crescia e provocava sintomas cada vez mais graves. Por volta dos sete anos, até meus movimentos já estavam afetados... Mas, graças ao alerta do farmacêutico, amigo da família, fui encaminhada a um neurologista e imediatamente internada.

No hospital, colocaram uma válvula em minha cabeça para drenar o sangue e aliviar a pressão na região. Só então fizeram a cirurgia, com uma previsão nada animadora. A mim só restavam três destinos: ficar cega, deficiente mental ou morrer. Após 37 dias no hospital, abri os olhos, enxerguei a escuridão e fiquei amedrontada, perdida. Porém, hoje tenho certeza de que fui abençoada.

Até os 9 anos, talvez tenha vivido a pior fase da minha vida. Saí da escola para acompanhar meus pais em uma incansável busca por qualquer terapia que pudesse reverter a minha situação. Na verdade, na maior parte do tempo passava mesmo sentada em casa, dependendo de ajuda para tudo. Todos tinham medo que eu caísse, me machucasse e não me deixavam nem me mexer direito. Pior ainda era a rejeição dos amiguinhos na época. As mães os proibiam de se aproximar, como se a minha deficiência fosse algo contagioso. Estava triste e confusa, quando meus pais tomaram a decisão que considero ter sido fundamental para tudo o que consegui realizar até hoje.

Descobrindo um mundo novo

Por sugestão da enfermeira do meu avô na época, minha mãe me matriculou no Instituto Padre Chico, uma instituição de ensino especializada em deficientes visuais. Lá, renasci. Fui alfabetizada em braile (o alfabeto dos cegos) e consegui me formar até a 8a série. Fiz trabalhos manuais, aprendi a tocar piano e flauta, tive aulas de informática e recebi orientações em mobilidade (para poder realizar sozinha as tarefas do dia-a-dia, como cozinhar ou andar de ônibus, por exemplo). Também aprendi que poderia realizar todos os meus sonhos, como qualquer pessoa - apenas teria de me esforçar em dobro. Foi exatamente o que fiz ao decidir enfrentar o magistério, o vestibular e a faculdade de pedagogia.

Há poucos livros e material de estudo específicos para cegos. Para aprender e enriquecer meu conhecimento, além da minha boa vontade, precisava contar com a dos outros. Meu pai e alguns (poucos) amigos e professores tinham a paciência de ler e me ditar frases, capítulos e até as questões das provas, que eu precisava transcrever em braile para depois respondê-las. Sem contar o preconceito de algumas pessoas que não acreditavam na capacidade intelectual de um cego. Nada disso, porém, me impediu de participar de cursos e congressos na minha área, nem de trabalhar para investir mais em mim.

Escolhi educação, aliás, porque sei da dificuldade que os deficientes visuais têm de progredir profissionalmente. E quero fazer algo para mudar isso.

Graças a um projeto que iniciei quando ainda estudava na Faculdade São Marcos, em São Paulo, atualmente coordeno um trabalho que facilita a comunicação entre professores e os alunos cegos de lá. Eles já contam, por exemplo, com ajuda, provas e materiais específicos.

Só isso já me faz a pessoa mais feliz do mundo. Antes era a única cega a me formar ali, agora já são oito atrás do diploma. Mas não me contento e quero realizar mais. Hoje eu sei que posso!

 


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