
1 - O que
é ronco?
É o ruído produzido pela vibração das vias aéreas superiores (que vão
do nariz à garganta). Para entender como ocorre, imagine um tubo que vai
se estreitando e pelo qual o ar tenha de passar para ser inspirado. Quando
ele percorre esse caminho, há um turbilhonamento: o ronco é o efeito sonoro
dessa vibração causada pelo afunilamento por que passa a coluna de ar
na faringe (garganta).
2 - Quais
são suas causas?
No ronco posicional, como o próprio nome sugere, o ruído é ocasionado
pela posição da pessoa ao dormir, geralmente de barriga para cima. Quando
o indivíduo deita dessa maneira, a tendência é abrir um pouco a boca,
e o queixo desloca-se para baixo e para trás, fazendo a língua cair também
para trás, pressionando a garganta. Isso facilita a ocorrência do barulho.
Em relação ao ronco rítmico, que não tem ligação com a postura ao deitar,
são vários os fatores que influenciam, como adenóides muito grandes e
amígdalas, tumores, rinites, desvio de septo, hipertrofia dos cornetos
e pólipos nasais. Diversas dessas patologias provocam a obstrução crônica
do nariz e a pessoa respira pela boca, o que não é normal. Afinal, a natureza
projetou o homem para respirar pelo nariz. Mesmo obstruções menores podem
obrigar o indivíduo a desenvolver a respiração bucal, o que sempre representa
uma solução ruim, embora necessária nesses momentos. O álcool e medicamentos
à base de diazepínicos (calmantes) são outros motivos que podem gerar
o ronco, pois levam ao relaxamento do músculo da faringe. Por fim, a obesidade
também contribui muito para o aparecimento do problema, pois a faringe
é passível de infiltração gordurosa, e isso eleva a obstrução.
3 - Que
riscos o ronco traz à saúde?
No ronco patológico, caracterizado por grandes vibrações e ruído intenso,
além do desconforto provocado nos outros (em geral a parceira com quem
o roncador divide a cama), existe a possibilidade de ocorrerem pequenas
interrupções na respiração - ocasionadas pelo fechamento parcial das vias
aéreas superiores. E as conseqüências são quadros mais graves de sobrecarga
cardiocirculatória, sonolência durante o dia, baixo rendimento intelectual
e no trabalho, cansaço e irritabilidade persistente.
4 - Como
chegar a um diagnóstico?
O indivíduo que ronca deve procurar orientação com profissionais como
o pneumologista, o otorrinolaringologista, o neurologista, o psiquiatra
ou o pediatra (que também sejam especializados em sono, se possível credenciados
pela Sociedade Brasileira de Sono). Um exame chamado polissonografia (realizado
tanto por convênios particulares como pelo Sistema Único de Saúde, o SUS)
pode ser solicitado para auxiliar o diagnóstico. A pessoa passa a noite
(geralmente) em um quarto, com eletrodos (sensores) ligados ao corpo.
Em uma outra sala, um computador registra e compara as diferentes variáveis
biológicas durante o sono, auxiliando no diagnóstico e acompanhamento
de inúmeras condições clínicas, como ronco, apnéia, outros distúrbios
respiratórios, alterações dos movimentos durante o repouso e sonambulismo.
5 - Uma
vez constatado o problema, qual é o tratamento?
Para o ronco posicional, que surge quando a pessoa deita de barriga para
cima, o melhor a fazer é ensiná-la a dormir de lado. Recomendo uma técnica
para ajudar: costure um bolso nas costas de uma camiseta para dormir,
no qual caiba uma bolinha de tênis, que não é muito dura e, portanto,
não machuca, mas provoca desconforto suficiente para que o paciente não
deite de costas. Essa medida, porém, não deve ser usada indiscriminadamente
porque não é solução para todos os casos. Já nos outros tipos de ronco,
o melhor é tratar suas causas. Se o problema for a respiração bucal, o
otorrino pode propor medicação anti-alérgica ou cirurgia para retirada
de adenóides e amígdalas, por exemplo, além de indicar sessões de fonoaudiologia
para corrigir vícios de respiração. Em caso de obesidade, recomenda-se
a perda de peso, entre outras medidas.
6 - Qual
a relação entre ronco e apnéia?
A apnéia é um estágio avançado do ronco, quando há uma parada respiratória
provocada pelo fechamento da faringe. A pessoa que sofre desse distúrbio
pode acordar (geralmente assustada) ou não. No adulto, considera-se apnéia
após 10 segundos de respiração interrompida. Como a criança tem uma reserva
menor, às vezes, depois de dois ou três segundos, o sangue já está pobre
em oxigênio. Só que fomos feitos para oxigenar o sangue ente 90 e 100
de saturação. Em apnéia, oxigenamos menos o sangue e isso pode ter conseqüências
sérias a pequeno, médio e a longo prazo. Portanto, o ronco tende a trazer
um sinal de alerta importante. Quanto ao tratamento da apnéia, o mais
recomendado atualmente é o uso de uma máscara de silicone parecida à de
inalação, chamada de CPAP (sigla, em inglês, para Continuous Positive
Airway Pressure). Ela é acomodada nas narinas e, por meio de uma
ventoinha blindada, joga ar comprimido pelo nariz e dilata a garganta,
que abre para a passagem do ar. Existe ainda a possibilidade do uso de
uma prótese intra-bucal (mais apropriada para apnéias leves). O recurso
cirúrgico parece mais indicado nos casos de pacientes com alterações nasais
ou aumento das amígdalas. Outras cirurgias têm indicação e resultados
muito controversos.
7 - Quem
ronca mais: homens ou mulheres?
O único estudo brasileiro existente sobre o ronco, realizado pelo Instituto
do Sono da Universidade Federal de São Paulo, em 1995, mostra que antes
dos 40 anos, 26,5%dos homens e 9% das mulheres roncam mais do que três
vezes por semana. Depois dessa idade, possivelmente pela influência da
menopausa ou do aumento de peso corpóreo, o número de mulheres quase triplica
e passa para 25%, enquanto os homens chegam a 36%. Mas, como se vê, o
sexo masculino ainda é o campeão de ronco.
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Maurício
Bagnato, pneumologista, especialista em medicina do sono,
responsável pela Unidade de Medicina do Sono do Hospital Sírio
Libanês, de São Paulo, e médico do Instituto do Sono da Unifesp |
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