Viva Saúde
Edição 15 - Julho/2005
 
Sumário da Edição
Edições Anteriores
Editorial
Sala de Espera
Consultório Médico
Aconteceu Comigo
Raio x
Leveza à Mesa
Atividade física
Saúde Natural
Mundo Infantil
Olho Clínico
Mais Vitalidade
Onde Encontrar
Internet
 
Exclusivo assinantes
Fale conosco
Assine já
Anuncie
 

  RONCO: durma-se com um barulho desses
A vibração das vias aéreas superiores - que produz um som, na maioria das vezes, insuportável - deve soar como um sinal de alerta para sua saúde

POR YARA ACHÔA

ILUSTRAÇÃO: MARCELO GARCIA

1 - O que é ronco?

É o ruído produzido pela vibração das vias aéreas superiores (que vão do nariz à garganta). Para entender como ocorre, imagine um tubo que vai se estreitando e pelo qual o ar tenha de passar para ser inspirado. Quando ele percorre esse caminho, há um turbilhonamento: o ronco é o efeito sonoro dessa vibração causada pelo afunilamento por que passa a coluna de ar na faringe (garganta).

2 - Quais são suas causas?

No ronco posicional, como o próprio nome sugere, o ruído é ocasionado pela posição da pessoa ao dormir, geralmente de barriga para cima. Quando o indivíduo deita dessa maneira, a tendência é abrir um pouco a boca, e o queixo desloca-se para baixo e para trás, fazendo a língua cair também para trás, pressionando a garganta. Isso facilita a ocorrência do barulho. Em relação ao ronco rítmico, que não tem ligação com a postura ao deitar, são vários os fatores que influenciam, como adenóides muito grandes e amígdalas, tumores, rinites, desvio de septo, hipertrofia dos cornetos e pólipos nasais. Diversas dessas patologias provocam a obstrução crônica do nariz e a pessoa respira pela boca, o que não é normal. Afinal, a natureza projetou o homem para respirar pelo nariz. Mesmo obstruções menores podem obrigar o indivíduo a desenvolver a respiração bucal, o que sempre representa uma solução ruim, embora necessária nesses momentos. O álcool e medicamentos à base de diazepínicos (calmantes) são outros motivos que podem gerar o ronco, pois levam ao relaxamento do músculo da faringe. Por fim, a obesidade também contribui muito para o aparecimento do problema, pois a faringe é passível de infiltração gordurosa, e isso eleva a obstrução.

3 - Que riscos o ronco traz à saúde?

No ronco patológico, caracterizado por grandes vibrações e ruído intenso, além do desconforto provocado nos outros (em geral a parceira com quem o roncador divide a cama), existe a possibilidade de ocorrerem pequenas interrupções na respiração - ocasionadas pelo fechamento parcial das vias aéreas superiores. E as conseqüências são quadros mais graves de sobrecarga cardiocirculatória, sonolência durante o dia, baixo rendimento intelectual e no trabalho, cansaço e irritabilidade persistente.

4 - Como chegar a um diagnóstico?

O indivíduo que ronca deve procurar orientação com profissionais como o pneumologista, o otorrinolaringologista, o neurologista, o psiquiatra ou o pediatra (que também sejam especializados em sono, se possível credenciados pela Sociedade Brasileira de Sono). Um exame chamado polissonografia (realizado tanto por convênios particulares como pelo Sistema Único de Saúde, o SUS) pode ser solicitado para auxiliar o diagnóstico. A pessoa passa a noite (geralmente) em um quarto, com eletrodos (sensores) ligados ao corpo. Em uma outra sala, um computador registra e compara as diferentes variáveis biológicas durante o sono, auxiliando no diagnóstico e acompanhamento de inúmeras condições clínicas, como ronco, apnéia, outros distúrbios respiratórios, alterações dos movimentos durante o repouso e sonambulismo.

5 - Uma vez constatado o problema, qual é o tratamento?

Para o ronco posicional, que surge quando a pessoa deita de barriga para cima, o melhor a fazer é ensiná-la a dormir de lado. Recomendo uma técnica para ajudar: costure um bolso nas costas de uma camiseta para dormir, no qual caiba uma bolinha de tênis, que não é muito dura e, portanto, não machuca, mas provoca desconforto suficiente para que o paciente não deite de costas. Essa medida, porém, não deve ser usada indiscriminadamente porque não é solução para todos os casos. Já nos outros tipos de ronco, o melhor é tratar suas causas. Se o problema for a respiração bucal, o otorrino pode propor medicação anti-alérgica ou cirurgia para retirada de adenóides e amígdalas, por exemplo, além de indicar sessões de fonoaudiologia para corrigir vícios de respiração. Em caso de obesidade, recomenda-se a perda de peso, entre outras medidas.

6 - Qual a relação entre ronco e apnéia?

A apnéia é um estágio avançado do ronco, quando há uma parada respiratória provocada pelo fechamento da faringe. A pessoa que sofre desse distúrbio pode acordar (geralmente assustada) ou não. No adulto, considera-se apnéia após 10 segundos de respiração interrompida. Como a criança tem uma reserva menor, às vezes, depois de dois ou três segundos, o sangue já está pobre em oxigênio. Só que fomos feitos para oxigenar o sangue ente 90 e 100 de saturação. Em apnéia, oxigenamos menos o sangue e isso pode ter conseqüências sérias a pequeno, médio e a longo prazo. Portanto, o ronco tende a trazer um sinal de alerta importante. Quanto ao tratamento da apnéia, o mais recomendado atualmente é o uso de uma máscara de silicone parecida à de inalação, chamada de CPAP (sigla, em inglês, para Continuous Positive Airway Pressure). Ela é acomodada nas narinas e, por meio de uma ventoinha blindada, joga ar comprimido pelo nariz e dilata a garganta, que abre para a passagem do ar. Existe ainda a possibilidade do uso de uma prótese intra-bucal (mais apropriada para apnéias leves). O recurso cirúrgico parece mais indicado nos casos de pacientes com alterações nasais ou aumento das amígdalas. Outras cirurgias têm indicação e resultados muito controversos.

7 - Quem ronca mais: homens ou mulheres?

O único estudo brasileiro existente sobre o ronco, realizado pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo, em 1995, mostra que antes dos 40 anos, 26,5%dos homens e 9% das mulheres roncam mais do que três vezes por semana. Depois dessa idade, possivelmente pela influência da menopausa ou do aumento de peso corpóreo, o número de mulheres quase triplica e passa para 25%, enquanto os homens chegam a 36%. Mas, como se vê, o sexo masculino ainda é o campeão de ronco.

 
Maurício Bagnato, pneumologista, especialista em medicina do sono, responsável pela Unidade de Medicina do Sono do Hospital Sírio Libanês, de São Paulo, e médico do Instituto do Sono da Unifesp
   

 


Faça já sua busca
no site da revista Viva Saúde


Copyright © 2008 - Editora Escala
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.