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Gente que deu a volta por cima
POR DANIELA TALAMONI
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| O músico comemora a recuperação dos movimentos em
um recente concerto |
"Luto contra a distonia pela música"
Com as mãos 'travadas' pela doença, o pianista João Carlos
Martins, de 64 anos, volta aos dias de glória graças ao uso da toxina
botulínica
" Desde pequeno fui apaixonado por piano, tanto que estreei em concerto
aos 10 anos. Porém, o destino me pregou algumas peças e quase desisti
dessa paixão. No auge da carreira, aos 27 anos, durante uma partida de
futebol, sofri uma queda que afetou o cotovelo direito e atingiu o nervo
ulnar, responsável por comandar os movimentos da mão. Passei por várias
cirurgias para amenizar o problema e fiquei revoltado só de imaginar ser
incapaz de atuar como antes. Não conseguia olhar para os pianos, vendi
todos os que tinha e me afastei da profissão por sete anos. Nesse período,
estudei economia e cheguei a trabalhar como empresário do pugilista Éder
Jofre. A garra do atleta, aliás, foi o que me incentivou a retomar meus
sonhos. Em 1973, ele reconquistou o título de campeão mundial de pesos
leves e eu também me animei. Voltei à forma. Depois de muitos anos, vivi
outra situação inesperada. Em 1995, na Bulgária, fui assaltado e agredido
com um golpe na cabeça. Por conta disso, tive um hematoma cerebral e permaneci
mais oito meses em tratamento. Após o susto continuei a tocar, mas o lado
direito do corpo ficou comprometido e a lesão do nervo se acentuou. Passei
a sentir dores insuportáveis na mão direita. Não agüentei e recorri a
uma cirurgia para retirada do nervo.
O show deve continuar
Ainda assim, nem pensava em me afastar novamente dos concertos e, por
dois anos, insisti, tocando apenas com a mão esquerda. O esforço colaborou
para o desenvolvimento de uma distonia que afetou os dedos e o pulso saudáveis.
Resultado: em 2002, com as mãos fechadas devido à doença, vi que era o
fim. Chorei muito.
Não queria me aposentar e desistir da música. Então, estudei regência
e abracei a profissão de maestro. Cinco médicos amigos desenvolveram duas
órteses para que eu pudesse brincar no teclado, em casa. Mas até hoje
sonho que toco em um concerto. Por isso, aceitei o tratamento com botox.
As aplicações são feitas localmente, sob anestesia geral e, graças a elas,
consigo abrir as mãos e me apresentar em público. É claro que os movimentos
são mais limitados e isso não importa. Agora, de vez em quando tenho a
chance de compartilhar as minhas emoções ao piano com a platéia."
Entenda
bem |
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Segundo a neurologista Chien Hsin Fin, de São Paulo,
a distonia é um distúrbio neurológico que provoca alteração no tônus
muscular. Por várias razões (herança genética, traumas, entre outras),
a pessoa perde a capacidade de coordenar os movimentos e estes tornam-se
involuntários, resultando em torções ou posturas anormais de partes
do corpo. No caso do maestro, a distonia é focal, afeta apenas as
mãos. O tratamento com toxina botulínica tem ajudado porque é capaz
de interferir nas terminações neuromusculares e relaxar os músculos
da região contraída. O efeito benéfico dessa substância costuma durar
de três a seis meses. |
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