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Edição 13 - Maio/2005
 
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  Gente que deu a volta por cima

POR DANIELA TALAMONI

O músico comemora a recuperação dos movimentos em um recente concerto
"Luto contra a distonia pela música"

Com as mãos 'travadas' pela doença, o pianista João Carlos Martins, de 64 anos, volta aos dias de glória graças ao uso da toxina botulínica

" Desde pequeno fui apaixonado por piano, tanto que estreei em concerto aos 10 anos. Porém, o destino me pregou algumas peças e quase desisti dessa paixão. No auge da carreira, aos 27 anos, durante uma partida de futebol, sofri uma queda que afetou o cotovelo direito e atingiu o nervo ulnar, responsável por comandar os movimentos da mão. Passei por várias cirurgias para amenizar o problema e fiquei revoltado só de imaginar ser incapaz de atuar como antes. Não conseguia olhar para os pianos, vendi todos os que tinha e me afastei da profissão por sete anos. Nesse período, estudei economia e cheguei a trabalhar como empresário do pugilista Éder Jofre. A garra do atleta, aliás, foi o que me incentivou a retomar meus sonhos. Em 1973, ele reconquistou o título de campeão mundial de pesos leves e eu também me animei. Voltei à forma. Depois de muitos anos, vivi outra situação inesperada. Em 1995, na Bulgária, fui assaltado e agredido com um golpe na cabeça. Por conta disso, tive um hematoma cerebral e permaneci mais oito meses em tratamento. Após o susto continuei a tocar, mas o lado direito do corpo ficou comprometido e a lesão do nervo se acentuou. Passei a sentir dores insuportáveis na mão direita. Não agüentei e recorri a uma cirurgia para retirada do nervo.

O show deve continuar

Ainda assim, nem pensava em me afastar novamente dos concertos e, por dois anos, insisti, tocando apenas com a mão esquerda. O esforço colaborou para o desenvolvimento de uma distonia que afetou os dedos e o pulso saudáveis. Resultado: em 2002, com as mãos fechadas devido à doença, vi que era o fim. Chorei muito.

Não queria me aposentar e desistir da música. Então, estudei regência e abracei a profissão de maestro. Cinco médicos amigos desenvolveram duas órteses para que eu pudesse brincar no teclado, em casa. Mas até hoje sonho que toco em um concerto. Por isso, aceitei o tratamento com botox. As aplicações são feitas localmente, sob anestesia geral e, graças a elas, consigo abrir as mãos e me apresentar em público. É claro que os movimentos são mais limitados e isso não importa. Agora, de vez em quando tenho a chance de compartilhar as minhas emoções ao piano com a platéia."

Entenda bem
  Segundo a neurologista Chien Hsin Fin, de São Paulo, a distonia é um distúrbio neurológico que provoca alteração no tônus muscular. Por várias razões (herança genética, traumas, entre outras), a pessoa perde a capacidade de coordenar os movimentos e estes tornam-se involuntários, resultando em torções ou posturas anormais de partes do corpo. No caso do maestro, a distonia é focal, afeta apenas as mãos. O tratamento com toxina botulínica tem ajudado porque é capaz de interferir nas terminações neuromusculares e relaxar os músculos da região contraída. O efeito benéfico dessa substância costuma durar de três a seis meses.
   


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