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Edição 13 - Maio/2005
 
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  Comportamento e sexualidade sem rodeios

JAIRO BOUER

" Tenho uma filha de 15 anos e outro dia escutei uma conversa dela com uma amiga. As duas comentavam o beijo que tinham trocado na festinha do final de semana. O tom parecia ser de brincadeira, sem conotação erótica, mas fiquei preocupada com a história. Garotas dessa idade já podem apresentar tendências homossexuais? Seria melhor conversar com ela sobre isso?"

ANA MARIA, BRASÍLIA (DF)

A adolescência é uma fase de várias experimentações, em que os jovens têm a oportunidade de 'testar' vivências para então perceber do que gostam ou não. O beijo de uma garota de 15 anos na amiga não deveria virar foco de preocupação dos pais.

É claro que algumas meninas dessa faixa etária já perceberam ou devem estar descobrindo sua orientação homossexual. Porém, a maioria dos beijos trocados nesse período podem ser encarados simplesmente como uma brincadeira. Existe a possibilidade, também, de ela estabelecer um laço emocional mais intenso com uma determinada amiga, sem conotação sexual explícita para, logo depois, perceber que seu desejo maior é se ligar a pessoas do sexo oposto. Em resumo: as possibilidades são várias nessa que é a etapa mais instável, inquieta e curiosa da vida.

"COMO TABUS E PRECONCEITOS NA ESFERA SEXUAL TÊM DIMINUÍDO, MUITAS VEZES OS JOVENS ENCARAM NOVAS EXPERIÊNCIAS COM UM POUCO MAIS DE LIBERDADE E NATURALIDADE"

Você precisa levar em conta, além disso, os padrões de comportamento que viram 'moda' entre os adolescentes. Atualmente, parece existir uma febre de garotas que beijam amigas em festas e casas noturnas. Parte dessas meninas encara a experiência com erotismo. Muitas agem dessa forma por pura diversão e pela experimentação, sem que haja qualquer interferência na orientação sexual. Existem ainda as que trocam carícias com outras jovens 'só porque todas as amigas também fazem isso'. A imposição do grupo leva a pessoa a atuar de uma determinada maneira, para que ela possa ser aceita. Nessa fase, quem quer ficar de fora da turma? Há inclusive aquelas garotas que acreditam que a carícia trocada entre meninas acende as fantasias masculinas. Elas interpretam a atitude ousada como uma forma de 'provocar' os homens ao redor (que são, na verdade, o foco principal de sua atenção).

Como tabus e preconceitos na esfera sexual têm diminuído ao longo dos anos, muitas vezes os adolescentes acabam encarando novas experiências com um pouco mais de liberdade e naturalidade, o que era muito difícil acontecer algum tempo atrás.

Claro que o ideal é que os pais se mostrem sempre abertos para o diálogo, mas nada de forçar a discussão. Uma dica, caso queira muito iniciar uma conversa com sua filha, é procurar introduzir o assunto (homossexualismo) lançando mão de comentários a respeito de reportagens, filmes e situações expostas na televisão ou nas revistas que abordam o tema. Com isso, ela vai perceber aos poucos que você está aberta e disposta a discutir a respeito. Se, depois disso, ela se sentir à vontade, certamente dará continuidade ao papo. Pode acontecer, no entanto, de ela não querer - daí o meu conselho é que você não insista, nem tente impor um debate. A menina poderá se sentir ameaçada e se afastar. Os filhos, diferentemente do que muitos pais imaginam, devem ter sua intimidade respeitada. Se esta regra é difícil de ser seguida por você, sugiro que tente se lembrar da época em que também tinha seus segredinhos de adolescente... Só assim, com respeito, compreensão e opinião sincera dos pais, os jovens aprendem a construir sua liberdade e autonomia com mais cuidado e responsabilidade.

 
JAIRO BOUER É MÉDICO PSIQUIATRA (SP)
   

Escreva para Direto ao Ponto, por Jairo Bouer: Av. Alfredo Egídio de Souza Aranha, 100, Bloco B, 8o andar, Gja. Julieta, São Paulo, SP, CEP 04726-170 jairobouer@simbolo.com.br


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