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Comportamento e sexualidade sem rodeios
JAIRO BOUER
" Tenho uma filha de 15 anos e outro dia escutei uma conversa
dela com uma amiga. As duas comentavam o beijo que tinham trocado na festinha
do final de semana. O tom parecia ser de brincadeira, sem conotação erótica,
mas fiquei preocupada com a história. Garotas dessa idade já podem apresentar
tendências homossexuais? Seria melhor conversar com ela sobre isso?"
ANA MARIA, BRASÍLIA (DF)
A adolescência é uma fase de várias experimentações, em que os jovens
têm a oportunidade de 'testar' vivências para então perceber do que gostam
ou não. O beijo de uma garota de 15 anos na amiga não deveria virar foco
de preocupação dos pais.
É claro que algumas meninas dessa faixa etária já perceberam ou devem
estar descobrindo sua orientação homossexual. Porém, a maioria dos beijos
trocados nesse período podem ser encarados simplesmente como uma brincadeira.
Existe a possibilidade, também, de ela estabelecer um laço emocional mais
intenso com uma determinada amiga, sem conotação sexual explícita para,
logo depois, perceber que seu desejo maior é se ligar a pessoas do sexo
oposto. Em resumo: as possibilidades são várias nessa que é a etapa mais
instável, inquieta e curiosa da vida.
| "COMO
TABUS E PRECONCEITOS NA ESFERA SEXUAL TÊM DIMINUÍDO, MUITAS VEZES
OS JOVENS ENCARAM NOVAS EXPERIÊNCIAS COM UM POUCO MAIS DE LIBERDADE
E NATURALIDADE" |
Você precisa levar em conta, além disso, os padrões de comportamento
que viram 'moda' entre os adolescentes. Atualmente, parece existir uma
febre de garotas que beijam amigas em festas e casas noturnas. Parte dessas
meninas encara a experiência com erotismo. Muitas agem dessa forma por
pura diversão e pela experimentação, sem que haja qualquer interferência
na orientação sexual. Existem ainda as que trocam carícias com outras
jovens 'só porque todas as amigas também fazem isso'. A imposição do grupo
leva a pessoa a atuar de uma determinada maneira, para que ela possa ser
aceita. Nessa fase, quem quer ficar de fora da turma? Há inclusive aquelas
garotas que acreditam que a carícia trocada entre meninas acende as fantasias
masculinas. Elas interpretam a atitude ousada como uma forma de 'provocar'
os homens ao redor (que são, na verdade, o foco principal de sua atenção).
Como tabus e preconceitos na esfera sexual têm diminuído ao longo dos
anos, muitas vezes os adolescentes acabam encarando novas experiências
com um pouco mais de liberdade e naturalidade, o que era muito difícil
acontecer algum tempo atrás.
Claro que o ideal é que os pais se mostrem sempre abertos para o diálogo,
mas nada de forçar a discussão. Uma dica, caso queira muito iniciar uma
conversa com sua filha, é procurar introduzir o assunto (homossexualismo)
lançando mão de comentários a respeito de reportagens, filmes e situações
expostas na televisão ou nas revistas que abordam o tema. Com isso, ela
vai perceber aos poucos que você está aberta e disposta a discutir a respeito.
Se, depois disso, ela se sentir à vontade, certamente dará continuidade
ao papo. Pode acontecer, no entanto, de ela não querer - daí o meu conselho
é que você não insista, nem tente impor um debate. A menina poderá se
sentir ameaçada e se afastar. Os filhos, diferentemente do que muitos
pais imaginam, devem ter sua intimidade respeitada. Se esta regra é difícil
de ser seguida por você, sugiro que tente se lembrar da época em que também
tinha seus segredinhos de adolescente... Só assim, com respeito, compreensão
e opinião sincera dos pais, os jovens aprendem a construir sua liberdade
e autonomia com mais cuidado e responsabilidade.
Escreva para Direto ao Ponto, por Jairo Bouer: Av. Alfredo
Egídio de Souza Aranha, 100, Bloco B, 8o andar, Gja. Julieta, São Paulo,
SP, CEP 04726-170 jairobouer@simbolo.com.br |
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