Medicina de família, médico de família. Uma moda que volta? Um retrocesso
saudosista que abre mão dos progressos da ciência e da medicina?
Duas histórias para esclarecer os termos. Há alguns anos atendia um chamado
na casa de uma família que me procurou, por indicação, sem me conhecer.
Apresentei-me na porta, examinei o doente, expliquei o que estava acontecendo,
fiz as prescrições necessárias, dei as recomendações para cuidar do enfermo
e aceitei, de bom grado, o cafezinho que me ofereceram. Nesse momento
de descontração, a filha do paciente confessou:
- A amiga que me recomendou o senhor disse que era médico de família.
Para ser franca, esperava receber um velhinho com aquelas malas antigas,
vestindo um terno com colete e...
- Ficou decepcionada? - perguntei.
- Não, de modo algum. Mas é que hoje não se vêem médicos de família por
aí. Quando era criança, lembro que o doutor da cidade do interior onde
morávamos sempre ia em casa e, mal entrava, já sabia o que tínhamos...
Morreu faz tempo, nós mudamos e nunca mais tivemos um atendimento assim.
Agora é tudo muito complicado, exames, hospitais, não sabemos o que acontece...
A história encerra lições e também torna clara a questão em pauta. O
médico de família sabia o que estava acontecendo, acertava o diagnóstico
do distúrbio que acometia o paciente e resolvia a questão de modo prático.
Acabei a segunda xícara de café, e me despedi. Logo que entrei no carro
vieram à mente as palavras que utilizo com freqüência em minhas aulas
para explicar o que nós, médicos de família fazemos, e que a moça, a seu
modo simples, acabava de dizer: "Tão importante como conhecer a doença
é conhecer a pessoa que tem a doença". É fundamental lembrar dos ensinamentos
de William Osler, um grande nome da área, que com audácia afirmava: "Mais
importante do que o médico faz é o que o paciente pensa que o médico está
fazendo".
| "O
MÉDICO DE FAMÍLIA NÃO É O MÉDICO DO SEU CORAÇÃO, NEM DO SEU RIM,
NEM DA SUA ARTROSE, NEM DA SUA DEPRESSÃO. ELE É, SIMPLESMENTE, O
SEU MÉDICO" |
A segunda história tem a ver com uma conversa com um velho professor.
- Digo a todos os meus doentes que sou médico de 'passando mal' - confessou,
categórico, certa vez.
- Como assim? - perguntei surpreso, ciente da quantidade de títulos
acadêmicos que constavam em seu currículo.
- Quando a pessoa tem dor de cabeça, procura o neurologista. Quando
tem dor nas costas, vai atrás do ortopedista e alguns do reumatologista.
Se o assunto é dor no peito, pontadas, batedeiras, toca procurar o cardiologista.
Agora, quando 'passam mal' acabam me procurando diretamente.
É preciso reinstalar a cultura do médico de família com credibilidade.
Não é difícil, mas requer competência, dedicação, compromisso com um ideal
que se resume em 'saber e querer cuidar' dos outros. Dizia um outro professor:
"Quando uma pessoa está doente, primeiro quer ao lado a própria mãe; depois,
um especialista que o cuide". Esse é o médico de família. E cuida sempre,
sem se importar com a doença. Cuida porque conhece o paciente e é conhecido
dele. Cuida onde quer que se esteja: no consultório, em casa, no hospital.
A medicina de família, especialidade reconhecida em muitos países, luta
por abrir espaço no nosso Brasil. Um caminho que implica atender as necessidades
da população e, ao mesmo tempo, instalar-se nas universidades, nas faculdades
de medicina - que é onde se fabricam os médicos -, para fazer deles profissionais
competentes. Buscamos a sabedoria do velhinho com colete, mas com informação,
com tecnologia, para poder oferecer ao paciente o que de melhor se produz
no mundo científico. Este especialista deve ser alguém que incorpore os
progressos do mundo moderno e os faça chegar ao paciente em uma linguagem
compreensível.
O médico de família não é o médico do seu coração, nem do seu rim, nem
da sua artrose, nem da sua depressão. Ele é, simplesmente, o seu médico.
Aliás, você já tem um?
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POR MARCO AURÉLIO JANAUDIS, MÉDICO DE FAMÍLIA, MEMBRO
DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA DE FAMÍLIA (SOBRAMFA), QUE ADORA
TOMAR UM CAFEZINHO COM SEUS PACIENTES |