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Edição 13 - Maio/2005
 
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  A volta do médico de família

MARCO AURÉLIO JANAUDIS

Medicina de família, médico de família. Uma moda que volta? Um retrocesso saudosista que abre mão dos progressos da ciência e da medicina?

Duas histórias para esclarecer os termos. Há alguns anos atendia um chamado na casa de uma família que me procurou, por indicação, sem me conhecer. Apresentei-me na porta, examinei o doente, expliquei o que estava acontecendo, fiz as prescrições necessárias, dei as recomendações para cuidar do enfermo e aceitei, de bom grado, o cafezinho que me ofereceram. Nesse momento de descontração, a filha do paciente confessou:

- A amiga que me recomendou o senhor disse que era médico de família. Para ser franca, esperava receber um velhinho com aquelas malas antigas, vestindo um terno com colete e...

- Ficou decepcionada? - perguntei.

- Não, de modo algum. Mas é que hoje não se vêem médicos de família por aí. Quando era criança, lembro que o doutor da cidade do interior onde morávamos sempre ia em casa e, mal entrava, já sabia o que tínhamos... Morreu faz tempo, nós mudamos e nunca mais tivemos um atendimento assim. Agora é tudo muito complicado, exames, hospitais, não sabemos o que acontece...

A história encerra lições e também torna clara a questão em pauta. O médico de família sabia o que estava acontecendo, acertava o diagnóstico do distúrbio que acometia o paciente e resolvia a questão de modo prático.

Acabei a segunda xícara de café, e me despedi. Logo que entrei no carro vieram à mente as palavras que utilizo com freqüência em minhas aulas para explicar o que nós, médicos de família fazemos, e que a moça, a seu modo simples, acabava de dizer: "Tão importante como conhecer a doença é conhecer a pessoa que tem a doença". É fundamental lembrar dos ensinamentos de William Osler, um grande nome da área, que com audácia afirmava: "Mais importante do que o médico faz é o que o paciente pensa que o médico está fazendo".

"O MÉDICO DE FAMÍLIA NÃO É O MÉDICO DO SEU CORAÇÃO, NEM DO SEU RIM, NEM DA SUA ARTROSE, NEM DA SUA DEPRESSÃO. ELE É, SIMPLESMENTE, O SEU MÉDICO"

A segunda história tem a ver com uma conversa com um velho professor.

- Digo a todos os meus doentes que sou médico de 'passando mal' - confessou, categórico, certa vez.

- Como assim? - perguntei surpreso, ciente da quantidade de títulos acadêmicos que constavam em seu currículo.

- Quando a pessoa tem dor de cabeça, procura o neurologista. Quando tem dor nas costas, vai atrás do ortopedista e alguns do reumatologista. Se o assunto é dor no peito, pontadas, batedeiras, toca procurar o cardiologista. Agora, quando 'passam mal' acabam me procurando diretamente.

É preciso reinstalar a cultura do médico de família com credibilidade. Não é difícil, mas requer competência, dedicação, compromisso com um ideal que se resume em 'saber e querer cuidar' dos outros. Dizia um outro professor: "Quando uma pessoa está doente, primeiro quer ao lado a própria mãe; depois, um especialista que o cuide". Esse é o médico de família. E cuida sempre, sem se importar com a doença. Cuida porque conhece o paciente e é conhecido dele. Cuida onde quer que se esteja: no consultório, em casa, no hospital.

A medicina de família, especialidade reconhecida em muitos países, luta por abrir espaço no nosso Brasil. Um caminho que implica atender as necessidades da população e, ao mesmo tempo, instalar-se nas universidades, nas faculdades de medicina - que é onde se fabricam os médicos -, para fazer deles profissionais competentes. Buscamos a sabedoria do velhinho com colete, mas com informação, com tecnologia, para poder oferecer ao paciente o que de melhor se produz no mundo científico. Este especialista deve ser alguém que incorpore os progressos do mundo moderno e os faça chegar ao paciente em uma linguagem compreensível.

O médico de família não é o médico do seu coração, nem do seu rim, nem da sua artrose, nem da sua depressão. Ele é, simplesmente, o seu médico. Aliás, você já tem um?

POR MARCO AURÉLIO JANAUDIS, MÉDICO DE FAMÍLIA, MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA DE FAMÍLIA (SOBRAMFA), QUE ADORA TOMAR UM CAFEZINHO COM SEUS PACIENTES


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