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Por uma vida longa e saudável Comemorar os 100 anos já não é mais privilégio dos orientais. Agora, especialistas tentam desvendar os caminhos para se chegar lá, com o máximo de vigor e lucidez
POR DANIELA TALAMONI FOTOS FERNANDO GARDINALI TRATAMENTO DE IMAGENS NEWTON VERLANGIERI
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| Entre 40 e 50 anos: as marcas do
tempo são visíveis, mas ainda se tem grande vigor |
Qualidade é fundamental
No Brasil, a expectativa média de vida da população pulou de 62,7, em
1980, para os atuais 71,9 anos. O novo desafio, portanto, é acrescentar
qualidade a esse tempo. "Precisamos descobrir como viver bem e aproveitar
os anos extras que a humanidade conquistou", diz o geriatra Luiz Roberto
Ramos, responsável pelo Centro de Estudos do Envelhecimento, da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp).
Além de ser um desejo da ciência, a busca pela qualidade de vida na terceira
idade tornou-se fundamental. Há algumas décadas, mulheres de 40 já eram
avós e costumavam ficar em casa, tricotando ou cozinhando para os netos.
Hoje, a maioria espera chegar a essa faixa etária para ter o primeiro
filho e muitas, no auge da carreira, nem pensam em se aposentar. Não é
à toa que a procura por cirurgias plásticas, o uso de toxina botulínica
e outros recursos estéticos de última geração para esconder as rugas,
manchas e marcas do tempo cresceu tanto. Só que a humanidade vive uma
contradição: a cabeça dos idosos rejuvenesceu, mas o corpo (mesmo esticado,
turbinado ou recauchutado) continuou sendo alvo das mesmas reações bioquímicas
naturais que, gradativamente e por volta dos 30 anos, começam a desgastar
as células e gerar perdas funcionais até levar o indivíduo à morte. Resultado:
cresceram os casos de doenças características da velhice, como câncer
de próstata e Alzheimer, antes consideradas raras - uma vez que ninguém
conseguia viver o suficiente para manifestá-las.
Até o início desse século, a única forma de desafiar a natureza e conter
as perdas do envelhecimento (isso para quem conseguisse sobreviver ao
acaso: violência, acidentes, infecção por vírus e bactérias etc.) era
torcer para encontrar alienígenas, bonzinhos, que aceitassem usar sua
tecnologia avançada para devolver a força e saúde da juventude aos idosos
(idéia sugerida pelo filme Cocoon, sucesso dos anos 80). Em 2001, porém,
o anúncio do seqüenciamento completo do genoma humano fez o mais complexo
enredo de ficção científica virar desenho animado. E a partir daí, a chance
de entender e interferir na atuação dos genes ampliou infinitamente essa
possibilidade.
"Minha
vitalidade é herança genética. Mas procurei dar uma força à natureza,
levando uma vida regrada e saudável até hoje. Durmo pelo menos
oito horas, nado durante uma hora todas as manhãs e, em seguida,
dedico-me às atividades intelectuais. Costumo ler bastante, inclusive
em inglês, para me atualizar, uma vez que sou membro vitalício
da Sociedade Americana de Técnicos de Natação. Também já escrevi
meia dúzia de livros. O título do último já resume tudo: Longevidade
e Esporte"
Maria Lenk,
90 anos, nadadora brasileira, primeira mulher da América do Sul
a participar dos Jogos Olímpicos - o que ocorreu em 1932, em Los
Angeles (EUA)
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| Após os 60: cuidados intensificados
para manter corpo e mente ativos até, quem sabe, os 100 |
Terapias genéticas
Com as principais descobertas, otimistas como o gerontologista inglês
Aubrey de Grey já defendem a tese de que um velhinho que hoje tem 60 anos
poderá viver mil! Em artigo publicado ano passado no jornal Folha de São
Paulo, ele afirma: "Existem sete principais danos moleculares, incluindo
a perda de células e mutações nos cromossomos, potencialmente reparáveis
com tecnologias que já existem ou estão em desenvolvimento". A maioria
dos especialistas, porém, tem uma previsão mais realista. "Ainda não conseguiram
descobrir os genes da juventude. Ao lançar mão, em breve, da terapia genética,
talvez consigamos conter alguns dos danos citados por Aubrey e chegar
aos 150 anos. Mas nada garante que estaremos protegidos de efeitos colaterais,
como o aumento da incidência de tumores", explica o geneticista Sérgio
Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Segundo os resultados de estudos nacionais e internacionais com grupos
de pessoas centenárias, 25% da longevidade dependem da qualidade e funcionamento
dos genes. Boa parte da responsabilidade (os outros 75%), no entanto,
recai sobre o estilo de vida e, portanto, está em nossas mãos. Prova viva
disso é o participante mais longevo do Pensa (Núcleo de Pesquisa em Envelhecimento
Saudável), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Há 107 anos
(comemorados no mês passado), e com uma saúde que considera excelente,
ele não cansa de dar a mesma resposta quando perguntam sobre seu segredo
de vitalidade: "Eu me alimento de maneira saudável, caminho todos os dias,
durmo o suficiente, tomo umas cervejinhas de vez em quando com os amigos,
faço o bem e mantenho o bom humor".
"Envelhecer bem não significa chegar aos 100 anos sem nenhuma doença
crônica - isso é utopia -, mas estar preparado para enfrentar as perdas
funcionais da melhor maneira possível", alerta o geriatra Luiz Roberto
Ramos, do Centro de Estudos do Envelhecimento da Unifesp, que há cerca
de 15 anos acompanha a evolução de um grupo de idosos do bairro de Vila
Clementino, em São Paulo. E, para se ter idéia, o mais novo da turma,
hoje, está com 80 anos. Na prática, um idoso pode tomar vários remédios
para conter pressão alta e diabetes, por exemplo, e ainda assim ser considerado
saudável. "Tudo dependerá de sua qualidade de vida. Quanto mais ele investir
nisso, maior será o seu controle sobre os sintomas e a sua força para
seguir a rotina, sem depender de ninguém", explica o especialista.
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