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Edição 13 - Maio/2005
 
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  Revolução 'invisível'
A nanotecnologia, ciência que trabalha com partículas tão pequenas que não podem ser vistas à luz, nem por meio de microscópios, prevê tratamentos mais eficientes, rápidos e baratos

POR ADRIANO CATOZZI

ILUSTRAÇÃO: MARCELO GARCIAO movimento nanotecnológico já tomou conta dos laboratórios de pesquisa, envolvendo diversas áreas do conhecimento: química, física, eletrônica, informática. E pretende afetar todos os setores da vida humana, especialmente a medicina, um dos campos em que sua aplicação parece mais promissora. Para entender por que essa revolução é considerada 'invisível' - impossível de ser visualizada até mesmo por meio de microscópio - tente imaginar o que seja um bilionésimo do metro. Pois esse é o tamanho de sua unidade de medida, chamada de nanômetro (o prefixo nano vem do grego e significa 'anão'). "Você divide o metro por um bilhão e obtém algo em torno de 100 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo", explica o químico Henrique Eisi Toma, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro O Mundo Nanométrico: A Dimensão do Novo Século (Ed. Oficina de Textos).

Remédios inteligentes

Manipulando essas partículas quase atômicas (um nanômetro tem aproximadamente 10 átomos), dentro de 5 a 20 anos a ciência prevê chegar a diagnósticos e tratamentos mais eficazes e rápidos para doenças como câncer, problemas cardíacos e Alzheimer.

Os medicamentos representam uma área sem limites para esse universo nanométrico. Dependendo do tamanho da nanopartícula utilizada, por exemplo, será possível planejar a velocidade da liberação do fármaco no corpo. Ou seja, diante de um determinado quadro clínico, em vez de o paciente ingerir uma cápsula a cada três horas, tomará uma única microcápsula por dia e o remédio ainda será mais bem aproveitado. Isso porque a pílula terá sido projetada para se dissolver e liberar seus agentes no tempo certo. A grande vantagem é que se evita o chamado pico de medicamento e os efeitos colaterais intensos, uma vez que a distribuição da droga é gradual e constante, funcionando durante o tempo todo e com maior segurança.

Essas partículas infinitamente pequenas também poderão ser programadas para se ligar a uma determinada droga e só liberar sua ação quando atingirem a região de destino, ou seja, o órgão doente. "É preciso transformá-las com um anticorpo, criando um sistema que reconhece o antagonista. Quimicamente modificado para identificar uma célula tumoral, o medicamento vai até a área afetada e, somente então, age para destruir o inimigo", explica o pesquisador da USP Henrique Toma.

Outra probabilidade interessante diz respeito a um processo chamado magneto- hipertermia, que permitirá localizar o remédio na região afetada por meio de nanopartículas magnéticas e associar um efeito térmico a elas. "Na presença de um campo elétrico elas esquentam, como em um microondas, absorvendo a radiação eletro-magnética e produzindo aquecimento brando. Cerca de 40o é suficiente para matar uma célula tumoral sem causar danos ao corpo", assegura o especialista.

Menos rugas à vista

O setor cosmético já usa alguns dos princípios da tecnologia em seus produtos. A finalidade mais comum é a proteção solar. Como esta ciência permite modificar quimicamente a superfície da matéria e introduzir moléculas, compostos, fármacos, anticorpos e outros, tornando-a mais eficiente, é possível mobilizar vitamina E nas nanopartículas. Resultado: além de bloquear a radiação ultravioleta do sol, que provoca câncer, o produto também combate os radicais livres que ível' levam ao envelhecimento da pele.

Outro exemplo: moldada em um processo de engenharia, a pequeníssima partícula permite trabalhar o efeito reflexivo da luz de maneira a mascarar uma cor real e, com isso, 'esconder' as rugas do rosto, por exemplo. "Você aplica o produto e ninguém consegue enxergar as marcas, embora elas estejam lá", diz o pesquisador da USP. E o melhor: exercendo uma ação sobre o tamanho das nanopartículas, é possível controlar também o grau de penetração dos medicamentos e das loções na pele, tornando os agentes mais eficientes. Combinado com a medicina, podese fazer com que uma pomada que tenha efeito cosmético exerça ainda função medicamentosa.

UMA NOVA MANEIRA DE VER O MUNDO
 
Como trabalhar com algo em uma escala infinitamente minúscula? "A saída parece absurda de tão simples: quando a visão falha, usamos o tato", diz o professor Henrique Eisi Toma, da USP. Isso significa que, através de equipamentos elétricos especiais, com 'pontas' fininhas, é possível 'tatear' até quase a escala molecular dos materiais, onde, em sua superfície, os elétrons fluem livremente - uma propriedade natural da matéria. Através da medida dessa corrente, verifica-se topografia, rugosidade, forma. A corrente elétrica colocada em um computador gera uma imagem com todos os sinais digitalizados, possibilitando uma resolução fantástica. Essa pontinha da sonda avalia também se a superfície é mole ou dura, condutora, quente, fria, aderente. "Ela dá uma informação muito além da imagem e, através disso, podemos diferenciar se há várias moléculas e detalhes físicos da composição do material, além da própria forma", conta o especialista. E por que uma partícula tão diminuta pode agir de maneira diferente do que é no tamanho macroscópico? A verdade é que o comportamento eletrônico dos materiais muda na escala nanométrica, devido a essa livre movimentação dos elétrons. Aparecem cores onde não haviam, surgem novas propriedades e características. "Eu diria que os materiais se tornam eletronicamente mais perfeitos", fala Henrique Toma. As nanopartículas de ouro, por exemplo, são vermelhas quando a luz incide sobre elas. A grafite, em sua camada mais fina, carrega eletricidade com perfeição, sem aquecer, como os metais. Já um nanotubo de carbono conduz o equivalente a um feixe de metros de cobre, possibilitando imensa redução de escala.
   


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