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Revolução 'invisível' A nanotecnologia, ciência que trabalha com partículas tão pequenas que não podem ser vistas à luz, nem por meio de microscópios, prevê tratamentos mais eficientes, rápidos e baratos
POR ADRIANO CATOZZI
O
movimento nanotecnológico já tomou conta dos laboratórios de pesquisa,
envolvendo diversas áreas do conhecimento: química, física, eletrônica,
informática. E pretende afetar todos os setores da vida humana, especialmente
a medicina, um dos campos em que sua aplicação parece mais promissora.
Para entender por que essa revolução é considerada 'invisível' - impossível
de ser visualizada até mesmo por meio de microscópio - tente imaginar
o que seja um bilionésimo do metro. Pois esse é o tamanho de sua unidade
de medida, chamada de nanômetro (o prefixo nano vem do grego e significa
'anão'). "Você divide o metro por um bilhão e obtém algo em torno de 100
mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo", explica o químico
Henrique Eisi Toma, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e autor
do livro O Mundo Nanométrico: A Dimensão do Novo Século (Ed.
Oficina de Textos).
Remédios inteligentes
Manipulando essas partículas quase atômicas (um nanômetro tem aproximadamente
10 átomos), dentro de 5 a 20 anos a ciência prevê chegar a diagnósticos
e tratamentos mais eficazes e rápidos para doenças como câncer, problemas
cardíacos e Alzheimer.
Os medicamentos representam uma área sem limites para esse universo nanométrico.
Dependendo do tamanho da nanopartícula utilizada, por exemplo, será possível
planejar a velocidade da liberação do fármaco no corpo. Ou seja, diante
de um determinado quadro clínico, em vez de o paciente ingerir uma cápsula
a cada três horas, tomará uma única microcápsula por dia e o remédio ainda
será mais bem aproveitado. Isso porque a pílula terá sido projetada para
se dissolver e liberar seus agentes no tempo certo. A grande vantagem
é que se evita o chamado pico de medicamento e os efeitos colaterais intensos,
uma vez que a distribuição da droga é gradual e constante, funcionando
durante o tempo todo e com maior segurança.
Essas partículas infinitamente pequenas também poderão ser programadas
para se ligar a uma determinada droga e só liberar sua ação quando atingirem
a região de destino, ou seja, o órgão doente. "É preciso transformá-las
com um anticorpo, criando um sistema que reconhece o antagonista. Quimicamente
modificado para identificar uma célula tumoral, o medicamento vai até
a área afetada e, somente então, age para destruir o inimigo", explica
o pesquisador da USP Henrique Toma.
Outra probabilidade interessante diz respeito a um processo chamado magneto-
hipertermia, que permitirá localizar o remédio na região afetada por meio
de nanopartículas magnéticas e associar um efeito térmico a elas. "Na
presença de um campo elétrico elas esquentam, como em um microondas, absorvendo
a radiação eletro-magnética e produzindo aquecimento brando. Cerca de
40o é suficiente para matar uma célula tumoral sem causar danos ao corpo",
assegura o especialista.
Menos rugas à vista
O setor cosmético já usa alguns dos princípios da tecnologia em seus
produtos. A finalidade mais comum é a proteção solar. Como esta ciência
permite modificar quimicamente a superfície da matéria e introduzir moléculas,
compostos, fármacos, anticorpos e outros, tornando-a mais eficiente, é
possível mobilizar vitamina E nas nanopartículas. Resultado: além de bloquear
a radiação ultravioleta do sol, que provoca câncer, o produto também combate
os radicais livres que ível' levam ao envelhecimento da pele.
Outro exemplo: moldada em um processo de engenharia, a pequeníssima partícula
permite trabalhar o efeito reflexivo da luz de maneira a mascarar uma
cor real e, com isso, 'esconder' as rugas do rosto, por exemplo. "Você
aplica o produto e ninguém consegue enxergar as marcas, embora elas estejam
lá", diz o pesquisador da USP. E o melhor: exercendo uma ação sobre o
tamanho das nanopartículas, é possível controlar também o grau de penetração
dos medicamentos e das loções na pele, tornando os agentes mais eficientes.
Combinado com a medicina, podese fazer com que uma pomada que tenha efeito
cosmético exerça ainda função medicamentosa.
UMA
NOVA MANEIRA DE VER O MUNDO |
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Como trabalhar com algo em uma escala infinitamente minúscula? "A
saída parece absurda de tão simples: quando a visão falha, usamos
o tato", diz o professor Henrique Eisi Toma, da USP. Isso significa
que, através de equipamentos elétricos especiais, com 'pontas' fininhas,
é possível 'tatear' até quase a escala molecular dos materiais, onde,
em sua superfície, os elétrons fluem livremente - uma propriedade
natural da matéria. Através da medida dessa corrente, verifica-se
topografia, rugosidade, forma. A corrente elétrica colocada em um
computador gera uma imagem com todos os sinais digitalizados, possibilitando
uma resolução fantástica. Essa pontinha da sonda avalia também se
a superfície é mole ou dura, condutora, quente, fria, aderente. "Ela
dá uma informação muito além da imagem e, através disso, podemos diferenciar
se há várias moléculas e detalhes físicos da composição do material,
além da própria forma", conta o especialista. E por que uma partícula
tão diminuta pode agir de maneira diferente do que é no tamanho macroscópico?
A verdade é que o comportamento eletrônico dos materiais muda na escala
nanométrica, devido a essa livre movimentação dos elétrons. Aparecem
cores onde não haviam, surgem novas propriedades e características.
"Eu diria que os materiais se tornam eletronicamente mais perfeitos",
fala Henrique Toma. As nanopartículas de ouro, por exemplo, são vermelhas
quando a luz incide sobre elas. A grafite, em sua camada mais fina,
carrega eletricidade com perfeição, sem aquecer, como os metais. Já
um nanotubo de carbono conduz o equivalente a um feixe de metros de
cobre, possibilitando imensa redução de escala. |
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