Ela
contém apenas 0,75 mg de levonorgestrel - nome complicado do substituto
sintético da progesterona, um dos hormônios que controla o ciclo menstrual,
presente em menor dose nos já conhecidos anticoncepcionais orais. Mesmo
assim, a chamada pílula do dia seguinte tem gerado controvérsias entre
os setores mais conservadores da sociedade e o Governo. Desde 2002, ela
é fornecida pelos serviços públicos de atendimento às vítimas de violência
sexual. Agora, deve estar disponível em todos os postos de saúde.
A iniciativa faz parte da Política Nacional de Direitos Sexuais e Reprodutivos,
lançada em 22 de março pelo Ministério da Saúde que, entre outras ações,
prevê a ampliação da oferta de métodos contraceptivos à população: pílulas
comuns, diafragmas, preservativos masculinos e femininos, anticoncepcionais
injetáveis, DIUs, minipílulas (indicadas para quem amamenta) e pílulas
do dia seguinte. "O objetivo é a prevenção da gravidez indesejada e a
redução do número de abortos provocados, estimados pela Organização Mundial
da Saúde (OMS) em um milhão por ano no Brasil", informa a médica Regina
Viola, técnica da área de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, que
participou da formulação dessa nova política.
Como a interrupção da gravidez é proibida no Brasil, exceto quando é
resultado de estupro ou põe em risco a vida da mãe, muitos desses abortos
são praticados em condições precárias, podendo levar à morte. "O aborto
é a quarta causa de mortalidade materna no país", revela a especialista.
Só no ano passado foram registradas 243 mil internações na rede pública
para curetagens pós-aborto.
A expectativa é que o maior acesso ao método e a orientação sobre planejamento
familiar reproduza experiências bem sucedidas em outros países. Em um
estudo publicado em janeiro no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA),
cientistas da Universidade da Califórnia, em São Francisco, avaliaram
2.117 norte-americanas com idades entre 15 e 24 anos, que pretendiam evitar
a gravidez, divididas em três grupos: o primeiro pediu livremente a pílula
do dia seguinte nas farmácias; o segundo recebeu com antecedência as doses
do contraceptivo e o terceiro teve de passar por uma clínica para ter
acesso a ele. No final, concluíram que as mulheres recorreram ao método
menos do que era esperado. Cerca de 40% admitiram que tiveram relações
sem proteção e 8% ficaram grávidas, mas não foram notadas diferenças no
comportamento sexual entre os grupos. Os investigadores calculam que metade
dos 3,5 milhões de casos de gravidez não-planejada que acontecem todos
os anos nos Estados Unidos poderiam ser evitados se o contraceptivo de
emergência fosse mais acessível. No Brasil, segundo a OMS, 31% das gestações
terminam em aborto.
| Trabalhos
endossados pela ONU trazem evidências de que a pílula à base de
levonorgestrel apenas evita o encontro do óvulo com o espermatozóide |
Polêmica sobre a forma de ação
O contraceptivo de emergência é um dos recursos destinados a reduzir esses
índices. Nem todos, porém, aceitam a tese. Representantes da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmam que a pílula é abortiva em
função de um dos seus supostos mecanismos de ação: impedir a implantação
no útero, caso o óvulo tenha sido fecundado (os outros são evitar ou atrasar
a ovulação e dificultar o transporte dos espermatozóides). Para os cientistas,
a gravidez começa após a implantação, portanto, antes desse fato não se
fala em aborto. Para a Igreja, contudo, a vida passa a existir a partir
do momento da concepção.
Enquanto prossegue o interminável debate sobre o início da vida, pesquisas
recentes na área de Reprodução Humana têm chegado a conclusões surpreendentes.
Trabalhos endossados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e a Federação
Internacional de Ginecologia e Obstetrícia trazem evidências de que a
pílula à base de levonorgestrel não interfere nos eventos que ocorrem
após a fecundação, apenas evita o encontro do óvulo com o espermatozóide.
Nesse sentido, atua como os demais métodos contraceptivos: previne a fertilização.
"Nenhum estudo conseguiu demonstrar que provoca a perda do óvulo fecundado
por inibir a implantação", atesta Juan Diaz, assessor médico para a América
Latina do Population Council, ONG que há mais de 50 anos atua em planejamento
familiar. "Se ela tivesse mesmo essa capacidade, sua eficácia deveria
se manter mesmo quando tomada tardiamente. Não é o que acontece", argumenta
o especialista.
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