"Tenho
lido notícias sobre pesquisas que envolvem a vacina para combater a Aids.
Parece que os especialistas ainda não chegaram a uma solução. Por que
é tão difícil encontrar a imunização contra o HIV?"
CLÁUDIO, POR E-MAIL
O primeiro teste de uma vacina contra a Aids ocorreu em 1987. Desde então,
pelo menos 70 tentativas foram realizadas, todas sem sucesso. Um dos maiores
obstáculos reside no fato de o HIV representar um vírus muito difícil
de ser 'domado'. Explicando: como sofre constantes mutações, fica complicado
achar um modelo de vacina que consiga barrar todas as suas pequenas variações.
O vírus mais comum na África, por exemplo, é diferente do tipo que vemos
no Brasil. E esse é só o início do problema...
Os testes da imunização em humanos também são um ponto bem delicado.
Toda vacina nova precisa passar por três fases de experimentação após
os estudos em laboratório. Na primeira, verifica-se a tolerância à droga,
quais são seus efeitos colaterais e se ela estimula o sistema imunológico
a produzir anticorpos. Essa fase é feita com um número relativamente pequeno
de voluntários. Na segunda etapa é pesquisada qual a dose ideal para a
vacina e como ministrá-la (por via oral, injetável, no braço, nos glúteos...),
e a quantidade de pessoas que passam pelo teste aumenta. Somente na terceira
fase é que se pode concluir se o processo é realmente eficaz para barrar
a infecção. Poucas pesquisas para a vacina do HIV conseguiram atingir
essa última e decisiva etapa.
Além disso, imagine todo o sistema de segurança envolvido com esses experimentos.
Os cientistas definitivamente não querem arriscar que os voluntários sejam
contaminados. Ou seja, as pesquisas iniciais têm de ser muito rigorosas,
pois a vacina (feita a partir do vírus atenuado ou de um pedaço dele)
não pode, em hipótese alguma, ser capaz de infectar o voluntário.
Isso sem contar a questão ética. Vamos supor que as pesquisas avancem
bastante, que a vacina seja bem tolerada e que as respostas imunológicas
sejam satisfatórias. Como tirar a prova de fogo? Pedindo para que os voluntários
façam sexo sem uma proteção e as mães soropositivas amamentem seus humafilhos?
Percebeu o tamanho do dilema que os cientistas enfrentam?
Hoje as pesquisas mais avançadas caminham na direção da vacina terapêutica.
Ela não serve para prevenir o mal em quem ainda não está infectado, mas
sim para tentar ajudar os soropositivos a eliminar a Aids. Desta forma,
talvez seja possível reduzir a dosagem dos remédios e até suspendêlos
temporariamente - o que diminuiria os custos dos tratamentos e reduziria
os fortes efeitos colaterais que as drogas de combate à doença causam.
Mas parece que tudo isso ainda vai demorar um pouco. Apesar de um novo
teste ter sido anunciado recentemente na Índia, a Organização Mundial
da Saúde (OMS), através da médica Marie-Paule Kieny, descarta qualquer
possibilidade de que um produto chegue ao mercado nos próximos cinco anos.
O mais provável é que demore 10 anos. Além disso, segundo a especialista,
mesmo que seja descoberta a imunização, a primeira geração do medicamento
dará proteção de apenas 30% a 50%. A idéia, no entanto, é prosseguir com
os estudos para que a segurança atinja os 90%.
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