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Edição 12 - Abril/2005
 
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  Herança de sangue
A hemofilia é uma doença hemorrágica hereditária, relacionada ao cromossomo sexual X e, por isso, afeta apenas os homens. Novas pesquisas estão sendo desenvolvidas para se chegar à cura

POR ADRIANO CATOZZI

Quando uma pessoa se fere, os 14 fatores de coagulação do sangue, em seus níveis normais, atuam no machucado, impedindo a hemorragia. Se o indivíduo tiver hemofilia, porém, isso não ocorre, pois há deficiência de alguns desses elementos, a perda de sangue é anormal e o quadro pode evoluir para uma anemia. Então, o que parecia ser uma simples pancada vira um grande problema. Por essas características, a doença impõe uma série de limitações aos pacientes. Entretanto, observando à risca todos os cuidados, é possível levar uma vida bastante normal.

As manifestações hemorrágicas decorrentes do distúrbio começam já na primeira infância. Diante dessa situação, é necessário realizar exames - o mais básico é o TTPA (tempo de tromboplastina parcialmente ativada) - para detectar alterações na coagulação do sangue. Uma vez constatadas, faz-se a quantificação dos fatores VIII e IX para diagnosticar o tipo de hemofilia (A ou B). "Não há formas de prevenção. O que fazemos é o aconselhamento genético. Ou seja, baseados no histórico familiar, podemos informar os pais das probabilidades de ter um filho hemofílico ou filha portadora", explica a hematologista e hemoterapeuta Margareth Castro Ozelo, do Hesangue mocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ainda assim, cabe uma ressalva: "Em cerca de 30% dos casos nos quais realizamos testes não há nenhum antecedente entre os parentes. Trata-se de uma mutação genética".

Os episódios hemorrágicos mais comuns são equimoses (manchas), hematomas, hematúria (sangue na urina), hemorragia oral e hemartrose ou sangramento dentro das articulações - que ocorre em joelhos, cotovelos, tornozelos e ombros. "O mais grave é o sangramento do sistema nervoso central, ou seja, o que se dá na cabeça. O risco de morte é alto", diz a médica.

Em razão disso, a prática esportiva, tão importante para uma vida saudável, exige cuidados redobrados. É necessário realizar exames prévios para avaliação das condições gerais, bem como passar por uma análise fisioterápica. E o mais importante: abolir modalidades que apresentem elevado risco de traumas, como futebol, basquete e skate. "A natação é altamente recomendada, pois consegue proteger as articulações ao mesmo tempo em que propicia o ganho de massa muscular. Por sua vez, a musculação depende do estado em que se encontra o indivíduo", diz Margareth Ozelo.

Mais qualidade de vida
O tratamento para os pacientes com hemofilia consiste na aplicação de hemoderivados que promovam a reposição dos fatores VIII (no tipo A) e IX (no tipo B). Além disso, requer atendimento multidisciplinar que inclui profissionais da fisioterapia, ortopedia e odontologia - e até mesmo outras especialidades, como a psicologia. A administração é intravenosa e pode ser feita em caráter emergencial - quando em sangramento - e preventivo. No Brasil, o medicamento é fornecido gratuitamente, mas para isso é fundamental que o paciente esteja cadastrado no centro de referência mais próximo de sua residência. Um programa do Ministério da Saúde prevê uma dose domiciliar de urgência para os casos mais graves, nos quais um eventual sangramento poderia pôr em risco a vida do paciente se ele tivesse de esperar a chegada até o hospital.

O remédio é obtido a partir de um processamento do plasma, feito por indústrias no exterior, embora com sangue doado em nosso país. Por depender de doações, no passado aconteceram muitos casos de contaminação de hemofílicos por vírus HIV (Aids) e da hepatite C, em épocas que pouco se sabia sobre essas enfermidades. "Hoje a contaminação já não existe mais. Contudo há ainda um percentual considerável de hemofílicos que são positivos em hepatite C, por terem se contaminado antes", lamenta a médica.

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