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Edição 12 - Abril/2005
 
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  O peso real da obesidade
Especialistas garantem que fatores emocionais, culturais e sociais (desconsiderados em boa parte dos programas de emagrecimento) colaboram para elevar os ponteiros da balança

POR DANIELA TALAMONI
FOTOS GAL OPPIDO

Mexendo com a auto-estima

De acordo com o psiquiatra do PRATO, a obesidade provoca um clima de rejeição tão grande que priva o indivíduo do convívio social e afeta inclusive os seus direitos de cidadão. Ele deixa de sair de casa e prefere se empanturrar de guloseimas em frente à TV a ter de enfrentar o constrangimento de não conseguir passar pela catraca do ônibus. "Também se sente incapaz de levar uma vida afetiva e sexual saudável e passa a valorizar demais outros aspectos da sua personalidade, como a inteligência, dedicando-se em exagero ao trabalho, por exemplo", completa a psicóloga e especialista em obesidade Silvana Martani (SP), da Clínica da Beneficência Portuguesa. Isso, porém, quando o peso não é um empecilho para o sucesso na carreira. No novo seriado Fat Actress(Atriz Gorda), do canal a cabo Showtime, ainda sem data prevista para estrear no Brasil, a ex-protagonista de Veronica's Closet, Kristie Alley (com seus reais quilinhos extras) conta com bom humor a saga de uma atriz desempregada e abalada psicologicamente que não consegue emprego por causa do 'corpão'.

Paralelamente à luta contra a obesidade também cresce um movimento internacional de apoio aos gordinhos que tem deixado a comunidade médica de cabelo em pé. Denominado International Size Acceptance Association (ISAA), seus ativistas defendem o direito de ser feliz, independente do peso. São contra a cirurgia de estômago, os remédios e até os cálculos do IMC - sigla de Índice de Massa Corpórea, que é o peso dividido pela altura ao quadrado -, usado mundialmente para definir se uma pessoa é obesa. "Não existe um peso ideal, mas aquele que nos faz sentir bem. Quando você deixa de se preocupar em conquistar o corpo perfeito e começa a se cuidar de maneira saudável, o emagrecimento passa a ser algo natural e secundário", acredita Denise Neumann (SP), responsável pela Magnus Corpus, versão brasileira da ISAA. Ela tem 1,61 m, 128 quilos e, segundo diz, saúde perfeita, graças a natação e reeducação alimentar, que faz com a ajuda de nutricionista.

Os médicos continuam achando que soluções radicais, quando bem aplicadas em alguns casos, são a única forma de evitar complicações que podem inclusive levar à morte. Contudo, concordam que essa movimentação em prol dos gordos possa ajudar muita gente a recuperar a autoconfiança, bem como o respeito e o amor-próprio. Resultado: fica mais fácil encarar o espelho e buscar mudanças definitivas.

Pode apostar: ao recuperar a autoconfiança você dá um passo definitivo rumo às pazes com a balança

Armadilhas do inconsciente

Alguns pensamentos e atitudes perante a vida - ou em frente à mesa - são típicos de quem tem a cabeça gorda, não importa o tamanho do corpo no momento. Veja ao lado quais são essas armadilhas do inconsciente, de acordo com especialistas em obesidade, e tente fugir delas se quiser viver em harmonia com a silhueta.

'Os alimentos são os vilões'. Foi pensando assim que muita gente aplaudiu de pé o documentário Super Size Me - A Dieta do Palhaço, em que o diretor decidiu provar que as opções do Mc Donald's podem fazer mal e engordar, por meio de um método nada inteligente: durante um mês ele se fartou só com as sugestões de lanches da rede. Quem não engordaria? O problema não é o que se come, mas como se come. Culturalmente, desde que nascemos, os alimentos estão carregados de outras conotações. Como prova de carinho muitas mães fazem de tudo para manter seus bebês gordinhos e não deixam de presentear com uma sobremesa os obedientes (embora essas atitudes sejam criticadas de forma veemente pelos médicos). Também é ao redor da mesa que temos a oportunidade de encontrar os amigos, reunir a família e também celebrar uma nova fase no relacionamento amoroso... "A principal dificuldade é quando as refeições passam a ser a única fonte de prazer na vida", explica o psiquiatra Ezequiel José Gordon.

'Com alguns quilos a menos, minha vida mudaria'. Isso é o que impõe a ditadura da magreza no mundo ocidental. O problema é que, no lugar de incentivar as pessoas a emagrecer, o slogan estimula a sensação de culpa em quem está poucos quilos acima do peso, além de promover a procura por soluções mágicas e imediatas. Resultado: anorexia e bulimia caminham junto com a obesidade. Quem deseja um emagrecimento duradouro e saudável deve pensar justamente o contrário: se eu mudar a minha vida, perderei peso. O caminho é certamente mais difícil, mas os resultados são mais eficazes. Buscar uma ajuda psicológica para tentar desatar as amarras impostas pela indústria da beleza pode ser a saída.

'Gordinhos são mais preguiçosos'. Não é verdade. O excesso de peso pode, sim, desanimar a busca pelas atividades físicas, uma vez que nas academias de ginástica eles geralmente são alvo de alguns olhares repressores. Porém, como pesquisas demonstram que um gordinho ativo pode ter mais saúde que um magrinho sedentário, não param de surgir opções de exercícios para esse público. O Núcleo de Qualidade de Vida da Universidade São Marcos, por exemplo, oferece atendimento gratuito a obesas adolescentes e adultas, por meio de orientação e conscientização corporal. Uma das aulas bem procuradas é a dança do ventre. "Graças à sensualidade da atividade, há também um estímulo à recuperação da autoestima", garante o nutrólogo e coordenador do Núcleo, Mauro Fisberg (SP).

'Quero ser emagrecido'. No fundo é difícil assumir a sua cota de responsabilidade no processo. Muitos gordinhos preferem imaginar um complô que esteja boicotando as suas tentativas de afinar a admitir seu fracasso. Passam, então a ter pena de si mesmos e aumentar a passividade diante do excesso de peso. Nesse estado de inércia, quando vão até um spa ou consultório médico depositam toda a sua confiança nos profissionais. Se não funcionar, é porque são incompetentes. "É como se o corpo gordo fosse um pneu que as pessoas deixam no borracheiro e buscam depois de alguns minutos quando o serviço estiver terminado", compara Ezequiel Gordon. Pensar assim só gera mais frustrações e quilos na balança.


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Realização: Luana Prade. Maquiagem e cabelo: Andrea Braga (Agência First). Modelo: Flávia (Agência Wired). Modelo veste: regata vermelha Fit Maxx, boxer branco sem costura Plie.

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