|
|
 |
O peso real da obesidade Especialistas garantem que fatores emocionais, culturais e sociais (desconsiderados em boa parte dos programas de emagrecimento) colaboram para elevar os ponteiros da balança
POR DANIELA TALAMONI FOTOS GAL OPPIDO
Afinal, por que não emagrecemos?
A comunidade científica já absolveu muitos gordinhos da culpa pelo resultado
na balança após identificar mais de 250 genes que favorecem o acúmulo
de gordura, mantêm o metabolismo lento ou aumentam o apetite. Mas o fato
de algumas pessoas terem negado a herança genética e feito as pazes com
o espelho sugere que, nas tentativas frustradas de emagrecimento, outras
razões mais fortes possam estar envolvidas. Ainda faltam comprovações
científicas para dizer até que ponto fatores emocionais, culturais e sociais
conduzem à obesidade, porém os médicos concordam que de alguma forma eles
colaboram - e muito - para o ganho e manutenção do peso. De acordo com
o psiquiatra Ezequiel José Gordon, responsável pelos grupos de psicoterapia
do Projeto de Atendimento ao Obeso (PRATO), do Hospital das Clínicas de
São Paulo, quase todos os pacientes apontam o formato corporal, redondo
e disforme como grande culpado por sua infelicidade. Entretanto, quando
conseguem perder peso, são raros os que se mantêm magros. "Isso porque
o corpo emagreceu, mas a cabeça continuou 'gorda', resume Ezequiel. Para
ele, é impossível afinar sem reeducação alimentar e exercícios, mas o
tratamento deveria ir além do aspecto físico e contar com uma equipe multidisciplinar,
composta por endocrinologistas e nutricionistas, além de psicólogos e
até psiquiatras. Caso contrário, os anseios do sujeito por trás das gordurinhas
correm o risco de ser desconsiderados.
Uma prova do perigo desse descaso é a parcela de ex-obesos mórbidos que,
depois de emagrecerem com a cirurgia bariátrica, desenvolvem depressão,
bulimia, anorexia, dependência de álcool e drogas, compulsões por jogos,
compras ou sexo. "A redução do estômago não permite que eles descontem
mais nos alimentos as carências psicológicas, entre outras razões inconscientes
que os levaram a engordar. Por isso, é comum procurarem novas válvulas
de escape", acredita Ezequiel Gordon. O psiquiatra Adriano Segal lembra,
porém, que isso ocorre com a minoria. "Geralmente, após a cirurgia, há
melhora significativa, inclusive emocional. De 500 pacientes que já acompanhei,
só 1% apresentou esse problema", garante.
| Se
dieta e exercícios não têm funcionado para diminuir seus quilinhos
extras, abra o coração - literalmente - com seu médico, nutricionista
ou professor de ginástica. Talvez a solução esteja nas mãos de um
outro profissional:
o psicólogo |
 |
"Não
penso que as pessoas têm de ser magras. Elas devem, sim, ser felizes.
Em algumas épocas, fui mesmo gordinha e feliz. Entenda: não tenho
desejo de emagrecer. Quero estar é de bem com a vida! Hoje, venho
afinando de uma forma natural. A comida deixou de ser uma fuga" |
| PRETA GIL É ATRIZ, CANTORA E RECENTEMENTE FOI CAPA DA
REVISTA DIETA JÁ, NA QUAL DEU ESSE DEPOIMENTO, MOSTRANDO ESTAR DE
BEM COM A VIDA E COM O CORPO |
DA
CABEÇA AO ESTÔMAGO |
 |
 |
|
• Tudo começa com um bombom, depois vem o segundo, o
terceiro... e lá se foi a caixa inteira. Embora o organismo
já esteja saciado após algumas mordidas, o indivíduo continua
comendo até se empanturrar. Em seguida, vem a sensação de culpa
e o desespero para achar uma solução mágica que o faça dormir
gordo e acordar magro. Como isso não ocorre, surgem frustração,
desânimo e depressão e a saída é buscar algo que dê prazer.
Sozinho, sem vontade de se arrumar para sair e quase conformado
com a triste sina, o jeito é atacar outra guloseima. O mecanismo
de compulsão é o mesmo que afeta viciados em álcool, cocaína
e nicotina. E, segundo estudos, a explicação é tão emocional
quanto química.
• Os organismos com excesso de peso produziriam pouca
quantidade de serotonina, neurotransmissor relacionado às sensações
de prazer e que tem a missão de avisar o cérebro que o estômago
já está satisfeito.
• "Uma das razões para essa queda seriam as dietas restritivas,
o hábito desesperado de ficar horas sem comer, o sedentarismo
e o estresse provocado apenas pela idéia de fazer regime. Todos
esses fatores costumam aumentar os níveis de insulina, substância
que impede a produção daquele neurotransmissor", explica a endocrinologista
Alessandra Rascovski (SP), chefe do Ambulatório de Obesidade
Mórbida do Hospital das Clínicas, que acaba de concluir uma
pesquisa, sugerindo a estreita relação entre tensão pré-menstrual
grave, compulsão alimentar e baixa dosagem de serotonina.
• Para completar, o endocrinologista da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp), João César Castro Soares, afirma que
altas doses de insulina também bloqueiam a ação da lipase, enzima
responsável pela queima de gorduras. |
|
  |
 |
|
 |
"Não
agüentava mais ser obesa" |
 |
 |
|
"Sempre
fui gordinha, por uma predisposição à obesidade na família.
A primeira consulta no endocrinologista foi aos sete anos,
depois disso não parei de tentar mudar a silhueta com dietas,
remédios... Na adolescência, era considerada a mais legal,
a melhor amiga, mas aquela que ninguém queria namorar. Procurava
compensar sendo culta e engraçada. As recompensas profissionais
não demoraram a aparecer. Aos 22 anos, fui trabalhar na Rede
Globo de Ribeirão Preto, o que me fez morar sozinha e aprender
muito. Por outro lado, a dedicação ao trabalho me rendeu vários
quilos a mais: comia muito mal. Quando engravidei estava com
126 quilos. Resultado: desenvolvi diabetes gestacional e enfrentei
uma gravidez de risco, mesmo adquirindo só 5 kg nesse período.
Quando a Júlia fez um ano, descobri que estava diabética.
Foi a primeira vez que realmente fiquei com medo das conseqüências
do meu excesso. Resolvi fazer a cirurgia bariátrica. Não agüentava
mais ser obesa. A recuperação pósoperatória foi difícil. Até
hoje os resquícios da minha cabeça de gorda me fazem achar
que a roupa nunca vai servir e que não há espaço suficiente
entre uma cadeira e outra para eu passar. Mas melhoro a cada
dia. Minha maior felicidade não vi no espelho, mas ouvi do
médico no consultório, quando ele me disse que eu não tinha
mais diabetes e que, pelo meu IMC, agora sou considerada uma
pessoa normal"
LEONOR CORRÊA APRESENTA
O PROGRAMA MELHOR DA TARDE, NA REDE BANDEIRANTES, E É IRMÃ
DO APRESENTADOR GORDINHO FAUSTO SILVA, DA GLOBO |
|
  |
 |
|
 |
Os especialistas em obesidade não acreditam que alguém possa engordar
simplesmente por um certo tipo de carência ou insegurança. Mas todos concordam
que estes sentimentos, como conseqüência da queda da auto-estima, podem
transformar a alimentação em única fonte de prazer - e, conseqüentemente,
fazer o indivíduo ficar cada vez maior.
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >> |
 |
|