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Edição 12 - Abril/2005
 
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  O peso real da obesidade
Especialistas garantem que fatores emocionais, culturais e sociais (desconsiderados em boa parte dos programas de emagrecimento) colaboram para elevar os ponteiros da balança

POR DANIELA TALAMONI
FOTOS GAL OPPIDO

Antes de ler esta reportagem, experimente olhar-se por inteiro no espelho mais próximo. Agora confesse: você gosta sinceramente do que vê? Ainda que sua resposta seja um confiante sim, aposto que, no mínimo, por alguns segundos, tenha passado por sua cabeça o mesmo pensamento que aflige boa parte da população: 'preciso emagrecer'. Não é para menos. A imposição dos padrões de beleza ditados pelo corpo esguio de modelos como Gisele Bündchen e as últimas pesquisas comprovando a relação do excesso de peso com o aparecimento de doenças graves e com a redução da expectativa de vida (uma queda de dois a cinco anos nas próximas décadas, segundo estimativa baseada no relatório nacional de saúde e nutrição dos Estados Unidos) transformaram a obesidade em um mal tão temido quanto o câncer. Esse medo, aliás, começa cedo: uma pesquisa da Universidade de Flinders, na Austrália, envolvendo meninas de cinco a oito anos, mostrou que 47% delas desejam ser magras e 45% fariam dietas se engordassem. A maioria das garotas, que ainda brincam de boneca, disse que estar em forma as tornaria mais populares.

Preocupação com o corpo e a alimentação

Em parte, elas estão certas. Há uma mobilização mundial na tentativa de afinar a cintura das pessoas, especialmente em dois setores: o de cuidados com o corpo e o da alimentação. Segundo informações do médico Carlos Heitor Bergallo, no site da Associação Brasileira de Academias (ACAD), aproximadamente 40 milhões de norteamericanos e três milhões de brasileiros freqüentam hoje o universo fitness. Paralelamente, os fabricantes de equipamentos de ginástica faturam cerca de US$ 5 bilhões ao ano nos EUA e R$ 600 milhões no Brasil, a maior parte destinada à montagem de uma academia em casa. Na área alimentícia, o que se observa é o crescimento da preocupação com a reeducação alimentar e a volta de antigos costumes à mesa. Como se já não bastasse a proliferação das opções light e diet nas prateleiras dos supermercados, um movimento mundial apelidado de slow-food (que em inglês quer dizer comida em ritmo lento) caminha na contramão do universo de pratos rápidos e industrializados e defende legumes e verduras colhidos na hora e cultivados sem agrotóxicos, a carne vinda de animais alimentados apenas com grãos e a refeição sem pressa - nem gula - e compartilhada com a família.

As novas tendências fizeram até os maiores representantes de fast-food alterar o menu e 'rebolar' para não sofrerem um boicote da 'geração saúde'. No ano passado, por exemplo, o Yum Brands (grupo que detém as marcas Pizza Hut, Taco Bell e KFC) tratou de providenciar um mês de academia grátis a seus consumidores. Já a rede Mc Donald's investiu, apenas em nosso território nacional, no cultivo de 50 alqueires de hortaliças para abastecer com opções mais saudáveis os 548 restaurantes do país. "O lanche Big Mac ainda é campeão de vendas por aqui, contudo os pedidos por itens da categoria 'saladas e muito mais' cresceram 40%, passando de R$ 700 mil em janeiro de 2004 para R$ 1 milhão no mesmo mês deste ano", revela Daniel Arantes, executivo nacional de marketing da rede.

Em meio às iniciativas para eliminar os excessos, especialmente entre crianças e adolescentes, nem o lanche da hora do intervalo nas escolas foi poupado. Desde 2001, várias instituições de ensino optaram por banir das cantinas refrigerantes, sucos artificiais, biscoitos recheados, salgadinhos, hambúrgueres e outras guloseimas.

Apesar de todo esse esforço conjunto, porém, nada parece conter a proliferação dos gordinhos. Estima-se que 70 milhões de brasileiros estejam fora de forma atualmente e que a obesidade infanto-juvenil tenha aumentado 240% nas últimas décadas. No mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas está acima do peso ideal e o distúrbio que pode causar doenças como hipertensão e diabetes já é considerado uma epidemia.

Sentimentos podem influenciar no aumento de peso. Mas você não fica gordo simplesmente por algum tipo de carência ou insegurança. Na verdade, uma coisa puxa a outra: isso acaba comprometendo sua auto-estima e comida vira a única fonte de prazer

Quem ainda acha que para enxugar os quilinhos extras só é preciso força de vontade, boca fechada e pique para malhar pode ter uma surpresa no dia em que a própria calça começar a apertar. Para especialistas, o aumento acentuado de peso é um problema complexo. "Apenas 5% dos casos estão associados a uma única causa, sendo conseqüência de um distúrbio hormonal ou doença", diz Adriano Segal (SP), coordenador do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (ABESO). A maioria, porém, ocorre por múltiplos fatores.

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