"Minha
vida mudou muito depois do dia 5 de maio de 1995. Estava casada, morando
no Japão há cinco meses, e com uma filha prestes a completar um ano. Naquele
dia, eu e ela pegamos carona com amigos para irmos a um churrasco. No
caminho, fomos surpreendidas por um caminhão. Minha filhinha foi lançada
do veículo e, apesar do corte no rosto que lhe renderia cinco cirurgias
plásticas, não sofreu seqüelas mais graves. Eu fui bastante atingida:
fraturei o maxilar, o fêmur, fiquei com o globo ocular exposto e fui submetida
a observação por causa de um coágulo no cérebro, que mais tarde regrediu.
O traumatismo craniano também me deixou sem olfato (não sinto cheiro
de nada, o que prejudica o meu paladar) e afetou a memória. Durante um
mês e meio, tive amnésia parcial. Não lembrava que já era casada e mãe.
Até hoje, não me recordo de alguns fatos e pessoas marcantes da minha
infância ou adolescência. Como se não bastassem os desgastes físicos,
também sofri pressões emocionais.
Meu casamento não ia bem, passei dois meses hospitalizada sem poder me
comunicar direito com os médicos e enfermeiras (afinal, não era fluente
em japonês) e só recebi alta porque tive depressão.
Depois de tudo o que passei, o fato de ter sede a toda hora não me preocupou.
Estava empenhada em recomeçar a vida. Tive mais uma filha, me separei
e só passei a notar que algo estava errado quando meu novo hábito extrapolou
os limites e comecei a engordar. Lembro que acordava sedenta, duas a três
vezes à noite, como se tivesse acabado de participar de uma maratona.
Um galão de 20 litros de água durava um dia em casa e eu não saía sem
uma garrafinha reserva na bolsa.
Mais uma surpresa
Após uma peregrinação por vários endocrinologistas, uma única médica abriu
meus olhos. Só ela me perguntou sobre a cicatriz na testa e, quando mencionei
aquela sede incontrolável, não teve dúvidas em pedir vários exames. O
diagnóstico confirmou a sua suspeita: estava com diabetes insipidus, uma
doença incurável que provoca rápida desidratação no organismo e, se não
for controlada, pode ser fatal. Hoje, com o tratamento, consigo ficar
mais tempo sem ingerir líquidos e já perdi alguns quilos. Meu desejo agora
é que essa história possa ajudar outras pessoas a descobrir essa doença
mais cedo do que eu."
ENTENDA
BEM |
 |
 |
|
Segundo a endocrinologista Silmara Leite (PR), o diabetes insipidus
é uma doença que afeta o funcionamento da glândula pituitária posterior,
localizada no interior do cérebro, que produz o hormônio antidiurético
(ADH). Por causa de herança genética ou lesões após ferimentos na
cabeça (como no caso de Adriane), doenças ou tumores, a glândula deixa
de secretar o hormônio e os rins perdem muita água. Essa perda acentuada
de urina reflete-se no aumento da sede e da ingestão de líquidos e
predispõe a pessoa a grave desidratação, levando inclusive à morte.
O diagnóstico da doença é difícil. Não há como dosar a quantidade
de ADH na urina e, muitas vezes, os exames não identificam alterações
na glândula. A saída dos especialistas, portanto, é observar a urina
do paciente após 24 horas sem beber nenhum líquido, para avaliar a
atividade do rim. Se continuar bem diluída, é sinal de problema. |
 |
 |
|
 |