Nos últimos anos, graças à internet, uma verdadeira revolução vem ocorrendo na maneira como pacientes e médicos se relacionam em consultórios, clínicas e hospitais.
A rede mundial de computadores oferece às pessoas acesso a uma infinidade de informações sobre pesquisas e artigos científicos, novos remédios e as mais variadas doenças. Munidas desses dados, elas discutem sobre o seu problema com o profissional de saúde e até questionam diagnósticos e tratamentos.
A BUSCA FRENÉTICA DOS PACIENTES POR INFORMAÇÕES, PRINCIPALMENTE PELA INTERNET, NA TENTATIVA DE SE SABER MAIS SOBRE UM PROBLEMA DE SAÚDE TEM GERADO DISCUSSÕES NA CLASSE MÉDICA
Essa tendência é confirmada pelo estudo realizado pela comunicóloga Wilma Madeira da Silva, coordenadora de projetos de pesquisa e de gestão do Instituto de Políticas Públicas Florestan Fernandes, de São Paulo. Segundo a pesquisa, feita com 116 internautas de todo o País, 85% navega pela rede à procura de esclarecimentos na área de saúde. A maioria busca responder às suas próprias dúvidas ou a de seus familiares. E 83% costuma fazer isso após uma consulta médica. "Os resultados comprovam que a internet afeta a vida das pessoas e que saúde é um tema que interessa muito à população em geral", acrescenta Wilma Madei ra, cuja pesquisa serviu de base para uma dissertação de mestrado (veja os resultados no quadro), recém-defendida na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
"A busca por informações também mostra que os indivíduos estão amadu recendo e reconhecendo seus di rei - tos", acredita o reumatologista Marcos Bosi Ferraz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "As pessoas estão querendo participar mais do processo de decisão sobre os tratamentos a serem seguidos", acrescenta o médico. Na avaliação do reumatologista, tentar encontrar soluções na internet é positivo, mas é necessário bom senso. "O acesso a esses dados nem sempre é feito da melhor forma possível, e nem tudo o que está na rede é confiável. Por isso, é importante que o paciente tenha uma visão crítica e seja auxiliado por um especialista". O pediatra Gabriel Oselka, coordenador do Centro de Bioética do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), também aconselha os pacientes a serem cautelosos. "Há todo tipo de informação disponível, de qualidade variável. É necessário fazer uma busca realista e descartar informações que envolvam, por exemplo, dados discrepantes e tratamentos miraculosos", alerta Gabriel Oselka. O médico recomenda ainda que se dê preferência a sites de organizações científicas e médicas reconhecidas. "Existem clínicas e médicos renomados que também mantêm sites de excelente qualidade", lembra.
SEDE DE INFORMAÇÃO
Cerca de 97% dos internautas que responderam à pesquisa coordenada pela comunicóloga Wilma Madeira da Silva e que costumam buscar informações sobre saúde na rede as acessam para si ou sua família. Os 3% restantes procuram dados para outras pessoas ou apenas por curiosidade sobre determinado assunto. A bibliotecária Márcia Martins da Rocha, do Rio de Janeiro, começou a se interessar por assuntos da área médica quando adotou duas crianças de mãe portadora do vírus da aids. "Primeiro, busquei informações para tirar as minhas dúvidas sobre filhos de mãe soropositivo; depois, quando meu filho caçula, adotivo, apresentou sinais de autismo", afirma Márcia, que criou, no site de relacionamentos Orkut, a comunidade Relação Médico-Paciente, com 940 membros. "Quem primeiro fez o diagnóstico de autismo do meu filho, aliás, fui eu, pesquisando na internet. Meses depois, um médico confirmou a minha suspeita", conta a bibliotecária. "Até hoje eu uso a rede para pesquisar sobre qualquer problema ou dúvida na área de saúde." Para Márcia, o tempo da consulta médica é melhor empregado quando o paciente está informado. "Em vez de o médico começar a me explicar tudo, do zero, ele pode ir direto ao assunto, respondendo às minhas dúvidas sobre aquilo que eu li na internet", diz. "Meu principal objetivo é entender o que está acontecendo para participar de todas as decisões envolvendo a minha saúde e a da minha família."
RÁPIDO E PRÁTICO
A estudante de fisioterapia Mariana Búrigo Peruchi, de Criciúma (SC), sempre procura se informar sobre saúde na internet por se tratar de um meio rápido e prático. "É só acessar sites de busca ou algum endereço científico que você acha logo o assunto. Mas eu procuro dar uma olhada também em livros para relacionar autores já conhecidos com esses achados on-line", afirma. Mariana disse que foi dessa forma que encontrou informações sobre o seu problema: a síndrome do ovário policístico. "Discuti bastante com a minha ginecologista e juntas definimos o melhor tratamento", revela a estudante. Já a arquiteta Kelly Alves, de São Paulo, conta que levou recentemente a seu dermatologista as dúvidas que surgiram ao ler, na internet, sobre a nova classificação da pele em 16 tipos. "Ele me deu os esclarecimentos que precisava", afirma.
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