A
essência do tratamento com as badaladas células-tronco não é novidade
para muitos médicos, uma vez que elas são utilizadas há décadas pelos
especialistas - mais especificamente no transplante de medula óssea. No
entanto, no final dos anos 90, a corrida por novas pesquisas reacendeu
o entusiasmo em relação a se descobrir a importância dessas células para
o combate de inúmeras doenças e para a regeneração de tecidos do corpo
humano.
De lá para cá, grandes vitórias foram comemoradas. Os cientistas, porém,
reclamam dos passos lentos que precisam dar na caminhada em busca de novas
conquistas, em virtude de o tema sempre esbarrar em questões éticas, morais
e religiosas, principalmente quando se fala em células-tronco retiradas
de embriões humanos.
Como a terapia parece ser a luz no fim do túnel para muitas enfermidades
terminais ou consideradas incuráveis pelos tratamentos padrões, as célulastronco
despertam o interesse não apenas daqueles que arregaçam as mangas em um
laboratório, mas de simples mortais como nós - que hora sofrem por causa
do diabetes, hora padecem com o coração fraco.
Essa reportagem especial que Viva Saúde preparou pretende entrar na discussão
sobre as pesquisas de ponta e orientar você nesse fascinante mundo das
células restauradoras da vida.
O QUE SÃO
Trata-se das mais primitivas células - aquelas que dão
origem ao que chamamos de corpo -, assim como as de um tronco de uma árvore
em que nascem galhos, folhas e frutos. Há, basicamente, dois tipos de
células-tronco: as de tecidos maduros de adultos e crianças e as de embriões.
No primeiro caso, podem ser encontradas no cordão umbilical e também na
medula óssea - o popular tutano. No segundo, existem somente no primeiro
trimestre da gravidez, correspondente ao período embrionário - são as
células que derivam de uma matriz germinativa. E são elas as atuais pupilas
dos cientistas. "As células-tronco adultas conseguem reparar danos no
corpo humano, mas são as embrionárias as mais eficazes para tratar doenças",
explica Eduardo Barreto, neurocirurgião do Rio de Janeiro.
DE ONDE VÊM
As engenheiras da vida podem ser retiradas por meio de uma punção (na
matriz óssea ou no cordão umbilical) ou podem derivar de células embrionárias
cultivadas em laboratório. O problema no segundo caso é que o embrião
todo tem de ser destruído. E é exatamente nesse ponto que os especialistas
encontram resistência para avançar ainda mais nas pesquisas. Por exemplo,
há objeções éticas e religiosas a respeito do fato de um embrião ser considerado
vida. Contudo, a defesa dos cientistas é a de que eles usam apenas embriões
descartados pelas clínicas de fertilização - aqueles que jamais resultariam
em gravidez. Defensora dos estudos, a geneticista Mayana Zatz, coordenadora
do Centro de Estudos do Genoma Humano do Instituto de Biociências da Universidade
de São Paulo (USP), costuma dizer que acha incoerente a comparação de
um embrião congelado e que deve ser descartado a uma criança doente e
sem esperança de vida.
PARA ONDE VÃO
O tratamento consiste em sua introdução por meio de via sangüínea. Grosso
modo, o mecanismo encontrado pelas tais células tem como objetivo localizar
o tecido doente - o qual pode ser um órgão ou uma artéria - e fazer daquele
ambiente o seu novo lar. Daí em diante, as espertinhas começam a recuperar
cada tijolo daquela nova residência. Esse processo é geralmente seguro
e parcialmente compreendido pelos especialistas. É evidente que esse 'parcialmente'
não pode ser desprezado pela ciência. Afinal, sabe-se que para um procedimento
terapêutico obter 100% de sucesso, é necessário que se conheça cada um
dos movimentos de sua ação.
Portanto, as pesquisas desenvolvidas com as células-tronco precisam avançar
mais. Contudo, também é necessário respaldo. A chamada Lei de Biossegurança
foi um primeiro passo para se colocar 'ordem na casa'. No mês de março
desse ano o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a liberação dos
experimentos com os embriões congelados que costumam ser descartados pelas
clínicas de fertilização. Isso, no entanto, não foi o suficiente para
pôr um fim à polêmica. Pelo contrário, aumentou o número de debates que
giram em torno de questões éticas, as quais impedem o desenvolvimento
mais profundo. "Essas questões precisam e estão sendo amplamente discutidas
no Conselho Federal de Medicina e nos Conselhos Regionais de Medicina
através do desenvolvimento da Bioética", salienta o médico Eduardo Barreto.
Embora as discussões estejam longe de chegar ao fim, já existem pessoas
lucrando com os resultados de uma terapia que parece fazer milagres. A
seguir, conheça os principais estudos que estão sendo conduzidos no Brasil
e em outras regiões do mundo e também compreenda de que maneira eles podem
ser responsáveis por salvar milhares de vidas.
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